Adolescência: as vantagens de 'ficar'
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 2003
Moacir Costa 
Há cerca de dez anos surgiu um verbo diferente no vocabulário amoroso, o ''ficar'', que designa o ato de manter uma certa intimidade física com alguém, mas sem o compromisso do namoro. Atualmente, esse verbo é conjugado com bastante naturalidade pelos jovens brasileiros. Seus pais, no entanto, ainda não compreenderam bem as regras deste estado tão comum na adolescência.
Para as gerações anteriores, quando duas pessoas se sentiam atraídas e dispostas a permanecer juntas, havia uma única saída possível: o namoro. Hoje, a garotada ''fica'' nas festas, na escola, nos shoppings, no cinema e nas danceterias, sem a expectativa de dar continuidade a esse relacionamento no dia seguinte.
As nuances do ''ficar'' não são nada complexas. O que acontece entre o jovem casal não ultrapassa beijos, abraços e ''amassos''. A relação sexual pode ser uma consequência, não um fim. Aos olhos dos mais atentos, a dupla adolescente parece estar apenas querendo se conhecer e se divertir. E essa é a verdadeira intenção.
Há uma grande vantagem nesse tipo de comportamento se for comparado à conduta dos jovens de vinte anos atrás. Antes, os rapazes assumiam uma atitude machista ao tentar conquistar as meninas, que se mantinham à mercê da iniciativa masculina, ''proibidas'' de expressar os seus desejos afetivos e eróticos. Agora, elas se colocam no mesmo patamar de seus parceiros e não são julgadas por isso. Os garotos também não precisam mais conquistar as jovens como forma de auto-afirmação, o que por sinal constituía uma fonte de conflitos intermináveis.
O ''ficar'', por sua vez, propicia um relacionamento mais democrático, sem tanta competitividade e jogo de poder entre o homem e a mulher. O envolvimento flui de maneira mais leve e positiva, porque não existem cobranças nem rejeição, sentimentos que reduzem a auto-estima e a autoconfiança.
Essa experiência nada mais é do que a continuação dos jogos eróticos infantis, entremeados de brincadeiras e curiosidade sexual, algo que sempre deixou os pais angustiados. Mas, desta vez, estão em foco a expressão da afetividade, a comunicação não-verbal entre os jovens, o fortalecimento de laços amorosos e o aprendizado do convívio com o outro. Existem mais dois pontos favoráveis nesse tipo de relacionamento: a possibilidade de fazer escolhas mais sensatas e a oportunidade de adquirir mais experiência, antes de eleger alguém como parceiro definitivo.
Em termos sócio-culturais, o ''ficar'' também possui seus méritos, uma vez que finalmente as mulheres não precisam mais dizer ''sim'' apenas para agradar ao homem. Sendo mais articuladas e francas, não se sentem pressionadas a permitir relações sexuais só para manter um relacionamento, em virtude do medo de serem dispensadas.
Essa nova maneira de se posicionar na vida afetiva e amorosa permite maiores espaços para o crescimento pessoal e as possibilidades de cada jovem conhecer melhor as próprias limitações. Na verdade, o ''ficar'' tem sido um comportamento tão comum que até os adultos estão ''ficando'' a dúvida é: esse comportamento está vinculado ao descompromisso ou ao temor do envolvimento.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


