Adeus ao piloto de fogão - Irondi Pugliesi
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segunda-feira, 09 de março de 1998
Irondi Pugliesi 
O que era apenas devaneio sobre uma história cujo desfecho apontava para uma direção oposta, hoje é concretamente uma realidade. O que antes era apenas perceptível, hoje é explícito e frequente. A mulher está mudando a sociedade brasileira. Se até ontem ela era vista como piloto de fogão, hoje ela tem outro plano de vôo e pilota desde pequenas aeronaves até o imponente Boeing. Encontramos mulheres comandando grandes empresas e importantes operações financeiras. Já é significativo o contingente de trabalhadores homens que agem sob as ordens de chefes mulheres. Não há, hoje, setor da atividade onde não exista presença feminina.
São muitos os exemplos de impérios empresariais que crescem a taxas exponenciais sob a direção de mulheres, mas citemos apenas alguns para ilustrar o atual quadro: TV Globo, uma das maiores redes de televisão do planeta; CSN - Companhia Siderúrgica Nacional, uma das maiores empresas do país, e o jornal carioca O Dia, que já recebeu vários prêmios e apresenta uma performance editorial e financeira que transformaram o veículo em destaque nacional.
É óbvio que diversos fatores influenciaram e contribuiram sobremaneira para tais avanços, como lutas políticas, a urbanização intensa do país e a consequente necessidade de aumentar a renda familiar. Fundamental também é a presença da ONU - Organização das Nações Unidas nos debates e elaboração dos programas em nível mundial. O mais recente encontro sob a coordenação da ONU foi em 1995, quando aconteceu a 4ª Conferência Internacional da Mulher em Beijing, na China. Foi também iniciativa das Nações Unidas a criação do Dia Internacional da Mulher. Mas a realidade é que a mulher brasileira, com leis ou sem leis, é forte e criativa. Ela é ímpar. Sempre que a mulher ocupa espaços são reavivadas discussões que, ao final, geralmente apontam para avanços na sociedade.
O importante é que estamos reescrevendo a velha história. Machões de um lado, sexo frágil de outro, assim se resumia o simplismo medieval que pautava a relação entre homens e mulheres. Este capítulo está sendo corrigido. Antes os mais importantes cargos e funções, e consequentemente os melhores salários, eram loteados entre homens. Agora as mulheres já derrubaram o muro, invadiram o quintal masculino e já estão se instalando com seu jeito lúdico e criativo de trabalhar. Isso acontece em todas as áreas, mesmo naquelas antes intensamente masculinas. Atualmente, metade dos advogados no país são advogadas e as mulheres representam 25% do quadro de juízes de direito. Elas também ajudam a manter a ordem vestidas com fardas da tropa de choque da Polícia Militar.
São grandes avanços, porém o Brasil está longe de ser o país das igualdades. No entanto, isso não deve ser interpretado como guerra dos sexos, onde homens e mulheres se entrincheiram para cuspir balas que soem ao revanchismo puro e improdutivo. A intenção não é, de forma alguma, a de cassar a hegemonia masculina, mas sim a de somar como fortes aliadas, sempre ao lado do homem moderno e inteligente, na constante luta pela conquista da qualidade de vida. O momento não é o de questionar a gestão masculina, mas entender que essas mudanças são o passaporte para a conquista da vida digna que todos pregam e dizem prezar. É a passagem para a sociedade moderna onde não mais exista a intransigência de princípios dogmáticos que limitavam, à força de lei, as mulheres estritamente aos trabalhos domésticos e nada mais que isso.
As mudanças comportamentais são lentas, mas os costumes estão se modificando e a moral tem novas interpretações. O saldo é extremamente positivo. Esta mudança da sociedade brasileira mostra que todos estamos compreendendo nossa associação à modernização e nossa convivência com o globalismo contemporâneo.
É fundamental que a mulher sente-se à mesa das grandes decisões neste momento em que o Brasil discute assuntos como o aborto, assédio sexual, ocupação de terras, unificação de mercados, paz mundial, desemprego e todas as outras questões sociais. Este variado temário prescreve a importância, no mínimo, da vistoria do olhar feminino.
Nesta, como tantas outras questões, é necessário paciência e muito trabalho para administrar os diferentes anseios e definir o que não passa de abstração sobre conceitos idealistas e o que pode vir a ser pura realidade.
De qualquer maneira, a poucos anos da virada do século e da chegada do terceiro milênio, comemoramos mais um Dia Internacional da Mulher quando é possível perceber que o caminho das mudanças já está sendo devidamente pavimentado e que já existem motivos concretos para serem comemorados.
Ainda estamos longe do ideal, mas o importante é que a sociedade está mudando, homens e mulheres estão avançando e a história já dá sinais de não querer permanecer estacionada nas brumas da desigualdade.


