Adeus ao passado - Renan Calheiros
Adeus ao passado
Renan CalheirosAquele que sabe não haver cometido injustiças sempre alimenta uma doce esperança (A República, de Platão). O Brasil ostenta um dos mais melancólicos títulos de desrespeito ao ser humano. É um dos campeões da pobreza, da miséria e da indigência. A cada dia aumenta a população dos excluídos, de pessoas que vivem de lixos e sobras. Esta paisagem sombria aflige a todos, envergonha os governantes e estarrece os governados. É imperioso que, independentemente de discussões acessórias, de identificação de paternidade, todos se debrucem sobre este retrato da miséria e apontemos urgentemente as soluções, não paliativos.
O PMDB está empenhado no Congresso na priorização de uma agenda social. O Plano Real representou conquistas, mas não pode se converter em um museu de referências sobre suas virtudes. O plano precisa ganhar uma face humana e adquirir um contorno social. Os gráficos impressionistas da área econômica não dizem respeito à população. A sociedade brasileira está saturada de horizontes róseos e promissores que nunca chegam.
Na última semana, fui honrado pelo meu partido ao ser indicado como um dos membros da comissão do Congresso que irá discutir e apresentar propostas concretas para combater a miséria. No Congresso existe mais de uma centena de projetos voltados para o combate às desigualdades sociais. Eu mesmo apresentei uma proposta de distribuição de renda vinculada à educação e considero extremamente oportuna uma discussão imediata a fim de apresentarmos à sociedade projetos factíveis que, progressivamente, nos possibilitem honrar esta hipoteca tão pesada.
Não seria precipitado, tendo em vista a grandeza do País, considerarmos que uma das soluções pode ser encontrada na própria execução orçamentária, que hoje, estranhamente, é voltada para priorizar o pagamento de juros. Estamos carentes de vontade política e vítimas do alheamento e messianismo de alguns economistas que vivem de cultivar, com zelo único, um narcisismo incompreensível. Qual plano pode ser apresentado como eficiente se exclui sua população? Que mérito têm os gráficos econômicos sofisticados e ininteligíveis à população? Que plasticidade têm as infinitas filas do desemprego?
Nesta semana, é impossível deixar de expressar nossa indignação: foram divulgados os balanços dos 15 maiores bancos brasileiros. O cotejo entre a rentabilidade do primeiro semestre de 98 e 99 demonstra a confortabilidade dos banqueiros e retifica a convicção de que o Brasil está se distanciando do óbvio: financiar a produção, estimular verdadeiramente a agricultura e gerar empregos. Bancos no paraíso, a produção no limbo e os trabalhadores no purgatório. O eixo, indubitavelmente, está equivocado.
Não podemos nos deixar seduzir pela facilidade das generalizações. Nem tudo é omissão. Tenho a íntima convicção de que a integração dos esforços, a soma de idéias, o combate à sonegação, o corte de privilégios e a vontade política do Congresso de fazer preponderar o social, irão nos permitir quitar esta dívida com a população. Afinal, é justo restituir o que é devido à sociedade. Não creio que seja o caso de discutirmos novos impostos. Temos de administrar os recursos existentes, distribuir renda, tributar e cobrar de quem deve e pode pagar. A proposta terá de ser, obrigatoriamente, uma obra aberta e coletiva.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça





