Adeus, amigo Júlio - José Caetano Perri
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 1998
José Caetano Perri 
Sorria, é Natal!. Esta foi a mensagem natalina idealizada pelo diretor presidente da Itamaraty S/A, Júlio César Marino, distribuída por toda a cidade de Londrina em inúmeros painéis, bem como a primeira página do nosso jornal de maior circulação - Folha de Londrina/Paraná, desde os primeiros dias do mês de dezembro de 1997. Dia 18 de dezembro de 1997 - 12h45 - Júlio chega em sua residência em Londrina onde é cruelmente assassinado. Sorria é Natal. Fim.
Aos que conheciam somente o bem sucedido empresário Júlio César Marino, como amigo de quarenta anos, sinto-me na obrigação de contar sua história, como minha homenagem póstuma. Júlio não nasceu em berço esplêndido. Muito pelo contrário, vem de família humilde. Era filho do Sr. César e de Dona Júlia, que se orgulhavam em contar que no início da vida, sua casa em Elisário (SP) tinha piso de terra. Mas sobrava amor e carinho aos filhos, que foram três: José Carlos, Júlio César e Luiz Carlos.
Eu o conheci jovem, alegre de óculos de grossas lentes, aos 14 anos, nas carrocerias dos caminhões do Expresso Salomé, conferindo e anotando as encomendas entregues na nossa cidade-feitiço, Catanduva, no interior de São Paulo. Assim que arrumamos namoradas, Júlio já fazia planos para iniciar a sua brilhante trajetória. Entre o emprego no Banco Queiroz e aprender a trabalhar com café na Bama Armazéns Gerais, do Sr. Queiroz e do Zé Calil, ele optou pelo último. Nessa escolha, meu amigo definiu as grandes paixões de sua vida: o trabalho e o café.
Com pouco tempo, pelo seu empenho, entusiasmo e grande conhecimento adquirido na classificação do café, Júlio já era sócio do Sr. Zé Calil em compras de café. Mas Júlio tinha pressa em vencer e fundou sua própria armazenadora - a Cagec (Companhia de Armazéns Gerais de Catanduva), juntamente com o irmão José Carlos e o pai, Sr. César. Nessa época eu já estava ao seu lado, acompanhando-o nessa meteórica ascensão. O sucesso foi tanto que Júlio se tornou exportador de café e a Comercial Exportadora J. Marino S/A começou a crescer, ficando evidenciado que meu amigo era predestinado a ser grande empresário.
Um dia, Júlio entregou-me a bandeira de sua firma, e finquei-me nas margens paranaenses do Rio Paranapanema, mais exatamente em Colorado, região de solo arenoso que produzia cafés tão finos quanto os paulistas. Quando todos diziam que os cafés paranaenses não se bebiam e eram desvalorizados, Júlio descobriu que existia uma desinformação nesse sentido. E passou a comprar esses cafés e exportá-los como paulistas finos.
O sucesso foi tão grande que fomos obrigados a vir para Londrina em 1970, comprando café nos escritório do amigo Silvio Rodrigues Alves e fazendo em um só ano um movimento de 650 mil sacas de café beneficiado. As empresas cresciam pelo dinamismo do Júlio e imprescindível apoio da equipe, principalmente pela retaguarda do irmão, sócio e conselheiro José Carlos.
A compra da Cotam - maior empresa de torrefação do Sul do País - foi concretizada com a rapidez costumeira dos negócios de Júlio. Entre um almoço no restaurante do Marcelo Sborghi até o café da manhã do dia seguinte, ele já era proprietário da nova empresa. Fez do Café Itamaraty a preferida de nosso Ministério de Relações Exteriores, tornando essa marca conhecida nacionalmente. A seguir vieram os filtros de papel e os acessórios.
Mas, para Júlio tudo isso não era suficiente. Sua visão empresarial levou-o a adquirir as instalações da Cocap em Curitiba, edificada na Cidade Industrial. Logo fez uma parceria de sucesso com a multinacional Nestlé, fabricando o Café Casa Grande e os biscoitos Waffer-São Luiz. Depois, Júlio entendeu que deveria diversificar seus negócios, e implantou as Indústrias de Biscoitos Itamaraty em Curitiba, Londrina e Catanduva.
Há aproximadamente 60 dias, Júlio havia recebido em Porto Alegre o prêmio do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), com os Biscoitos Sabor em Dobro. Que euforia ao contar-me do seu discurso naquela oportunidade, confessando que Nossa Senhora o iluminara no invento para alegrar a criançada.
Quanta satisfação no dia 17 - sete antes do Natal, quando, sorrindo, dizia-me ter sido o melhor ano de toda a sua vida. Mostrou-me a fábrica de ovos de Páscoa, ligou ao presidente da Melitta cumprimentando-o pelo Natal, ao jornalista Walmor Macarini por artigo publicado no jornal do dia, com o qual havia se identificado. Tudo isso três horas antes do seu brutal assassinato. Despedimo-nos e sai...
Júlio, meu amigo, meu irmão - você carregou por toda a sua existência a estrela do sucesso, e o que o impulsionava ao trabalho era a necessidade de vencer, para orgulho de seus pais, dos seus irmãos e seus sócios, das filhas Luciana e Carla, além da Marta, sua fiel companheira.
Só Deus sabe do seu dom de tentar proporcionar o bem aos menos favorecidos, do esforço em fazer uma biscoito de baixo custo para servir de alimentação para muitos, pois dizia ser esse o seu maior compromisso.
Deixa-nos exemplos que demonstram sua personalidade, como aquele do Zezão Makiolke da Rádio Paiquerê vestido de Papai Noel, quando ambos aterrissaram de helicóptero no centro do campo de Estádio do Café, em dia de jogo, para distribuir brindes à criançada e levar-lhes a alegria e o sorriso natalino.
Aquele foi seu dia de sonho, pois o Papai Noel que o acompanhava proporcionou-lhe marcar um gol com estádio lotado, para sua vibração e aplausos da galera. Ruim de bola, mas grande de coração, você recebeu esse presentão em troca dos muitos que trouxera.
Foi assim, amigo Júlio, que você esteve entre todos nós, seus familiares e amigos. Se nossa fé ensina que Deus nos envia para a vida e nos convoca de volta quando a missão estiver cumprida, certamente sua obra já estava edificada no tamanho exato, saindo de cena para que seus irmãos e sócios, juntamente com seus sucessores a continuem.
Você entendeu o chamado do Pai, já que precisava fazer com que a Carla e a Luciana crescessem à frente de suas empresas, apoiados pela Marta e conduzidas por seus queridos irmãos, José Carlos e Luiz.
Para nós que ficamos, só pode haver uma explicação para sua partida. As crianças de algum lugar do céu precisavam de alguém dinâmico, entusiasta, criativo, para idealizar por lá painéis com mensagens pedindo sorrisos, ou até mesmo que inventasse biscoitos com sabor em dobro para alegrar a criançada. Por isso você foi chamado.
Vá, amigo Júlio, vá para o Pai, que nós que contigo vivemos estaremos rezando por você e pelos seus, aplaudindo com saudade a sua brilhante trajetória, o seu sucesso, do menino simples e responsável até o bem sucedido empresário: arrojado, vibrante, empreendedor, o Júlio do Itamaraty.
- JOSÉ CAETANO PERRI é advogado e agropecuarista em Londrina


