ADEUS A MADIBA - Mandela e seu legado pacifista
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domingo, 15 de dezembro de 2013
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
Dez dias após a morte de Nelson Mandela, o ícone da luta pela igualdade racial na África será enterrado hoje, no pequeno vilarejo de Qunu, onde nasceu, a 900 quilômetros de Johannesburgo. Marcado por uma história de lutas e incansável resistência ao regime racista, Mandela morreu aos 95 anos. Durante dias, milhares de pessoas esperaram por horas para prestar a última homenagem ao líder no velório realizado na cidade de Pretória.
O homem do povo Abathembu foi o primeiro presidente negro da África do Sul eleito democraticamente. Antes, passou 27 anos preso por sua oposição ao regime segregacionista. Foi libertado apenas aos 72 anos de idade. Seu isolamento durante esse período, contudo, não impediu o crescimento da influência de Mandela, que tornou-se uma bandeira mundial na causa pelo fim do apartheid e de qualquer tipo de racismo não só na África, mas em todo o mundo.
Para Raphael Bicudo, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, especialista em economia e política da África Subsaariana, o grande mérito de Mandela é que ele não quis combater o apartheid a partir de outro modelo de segregação, mas lutou para criar uma nova identidade nacional, sem exclusão. "Existem atualmente várias lideranças no continente africano, mas, dificilmente vai aparecer uma figura tão expressiva quanto a do Mandela", vaticina.
O que a sociedade pode tirar do legado que Nelson Mandela deixou não somente para o continente africano, mas para todo o mundo?
A figura do Mandela em sua atuação na África como um todo por sua atitude pacifista em tratar questões como o apartheid e outras em relação a África Subsaariana de reconciliação, de paz é muito marcante. Certamente, o grande legado que ele deixa é de que é possível alcançar e mudar questões do ponto de vista social e político na base do diálogo, da discussão e não pela violência.
Pode-se dizer que a história de vida dele trouxe uma esperança na humanidade e na civilização?
Acho muito forte colocarmos dessa forma. Realmente, o legado dele foi bastante importante, principalmente na África em que ele viveu, com grandes problemas sociais e políticos, muitos governos africanos de ditadura e totalitarismo, como é o caso da Angola. Mas é complicado colocarmos nesses termos, de avanço da humanidade. Ainda há muitos problemas no mundo, como a fome, as guerras, sobretudo no continente africano.
Mandela influenciou de alguma forma o movimento negro no Brasil?
Com certeza. Não só no Brasil, mas em outros países também. E não só na questão negra. Outros movimentos acabaram sofrendo a influência dos valores que ele pregava. É inevitável dizer que houve impacto, inclusive aqui em nosso país. Mas na África existiu uma questão específica. Mesmo com o fim do apartheid na África do Sul, ainda existe uma série de práticas racistas, não nos mesmos moldes que no período anterior. A gente sabe que racismo existe ainda nas várias esferas sociais, sobretudo a de trabalho. E, no Brasil, existe um racismo muito velado.
Chega a ser um apartheid invisível no Brasil?
O termo, apesar de ser forte, não deixa de ser adequado. Porque se analisarmos, por exemplo, os principais cargos de empregos, são pouquíssimos os negros. Isso se reflete em outras esferas também. Apesar de termos alguns negros que tiveram ascensão social, os números e dados mostram que há uma diferença, uma distância muito grande. Portanto, mesmo que não seja um apartheid declarado, várias práticas do cotidiano mostram que há racismo no Brasil, ainda que nos últimos anos tenhamos tido algumas mobilidades sociais dos negros. Grande parte dos presidiários são negros, grande parte dos que são revistados pela polícia são negros. Muitas vezes os negros não são bem vistos em determinados locais públicos e olhados com preconceito.
Há semelhanças entre a segregação ainda vista no Brasil e a vivida na África?
Existe uma grande diferença. Na África há o aspecto da colonização que difere da do Brasil. Isso impossibilita estabelecer essa relação. Obviamente que muitas práticas acabam ocorrendo em ambos os locais. Agora, as causas e o que está por trás disso são questões que precisam ser diferenciadas.
A morte do Mandela gerou grande manifestação dos brasileiros nas redes sociais, com reverências à história dele. Entretanto, no último dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, muitos não se posicionaram da mesma forma. Como o senhor analisa essa postura: com uma figura de fora houve muita solidariedade, mas internamente, não há tanta consciência?
Pela grandeza da figura do Mandela é compreensível a repercussão que a vida dele acabou gerando. Além disso, a presença de diversas mídias que temos hoje contribuiu e acabou gerando essa comoção mundial. Posso dizer que, embora seja um fenômeno nacional, a data de 20 de novembro é um reflexo da falta de espaço e tratamento das questões raciais no Brasil. Outro fator é a falta de educação e por grande parte da população negra ter um nível de instrução menor. Isso acaba não gerando um apelo tão grande.
O mundo e a África possuem outros líderes da importância de Nelson Mandela?
Certamente. O contexto histórico favoreceu a figura do Mandela. Mas, em geral, a África teve e tem importantes líderes e pensadores. Muitos deles, inclusive, influenciaram o próprio Mandela. Nisso a África é muito rica. Mas dificilmente vai aparecer uma figura tão expressiva quanto a dele. Porém, não podemos decretar o fim da história.


