Os últimos presidentes do Brasil mostram um traço em comum: todos fizeram muita força para desmoralizar conhecidos produtos, conceitos e instituições. Cada um escolhe o alvo que lhe convém ao temperamento e à formação. Collor, o manipulador das aparências, por exemplo: desmoralizou a caneta Montblanc e a gravata Hermés. Eram griffes do consumo globalizado, viraram ícones da corte collorida.
Itamar, nacionalista e homem comum, mirou em hábitos e costumes brasileiros. Tentou desmoralizar o Fusca e a paixão de Carnaval. Fernando Henrique, um intelectual, aponta muito mais alto: pretende desmoralizar ninguém menos do que Adam Smith.
Relembrando: Adam Smith foi o pensador escocês que criou as bases da teoria econômica clássica. É um dos inventores do mundo moderno. Em seu livro mais famoso, ‘‘Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações’’ (publicado em 1776), postulava que, deixado ao jogo de suas próprias forças, o mercado conseguiria sempre harmonizar a busca individual do lucro com o interesse coletivo.
Seria como se a mão invisível do mercado dirigisse as decisões econômicas dos indivíduos. Os liberais, desde então, tomam as palavras de Adam Smith como escrituras sagradas. Não existe para eles heresia maior do que o Estado meter sua pata desajeitada no funcionamento livre da economia.
Todos os argumentos em favor da privatização exigem a aceitação desse pressuposto: a empresa privada serviria melhor à sociedade do que a empresa estatal. Se é mesmo assim, vamos então vender para empresários privados as empresas estatais. E que o mercado funcione livremente desde o momento de vendê-las. Nada mais óbvio, certo?
Errado. O caso dos grampos mostrou que a mão invisível no leilão da Telebrás não era a do mercado. Era justamente a do Estado, encarnado na pessoa do agora ex-ministro Mendonça de Barros. Ou melhor: teria ficado invisível, não fosse o vazamento das fitas gravadas ter mostrado todo o peso da mão ministerial no momento exato em que tentava facilitar o jogo para o consórcio liderado pelo Opportunity (‘‘a gente’’, nas fitas), contra o Consórcio Telemar (os inimigos, a telegangue ou a rataiada).
É de fazer Adam Smith espernear na tumba. O homem comum, aquele de Itamar, deve estar perguntando: os homens deste governo não são liberais devotos? Ou não acreditam no que propagandeiam o tempo todo? Vai ver, eles não leram seu mestre com cuidado. Teriam aprendido em ‘‘A Riqueza das Nações’’ que a privatização, entre outros nobres resultados, produz o seguinte benefício: o soberano é inteiramente dispensado de um dever o qual, ao tentar cumpri-lo, o exporá sempre a inumeráveis desilusões, e para cujo desempenho correto nenhum conhecimento ou sabedoria humanos serão jamais suficientes; o dever de supervisionar a indústria de pessoas privadas e dirigir seu emprego na direção mais favorável aos interesses da sociedade.
O ex-ministro das Comunicações, pelo jeito, não quis proporcionar esse benefício a seu soberano. Preferiu expô-lo a desilusões. Ou então, a mão invisível não funciona mesmo ao Sul do Equador. O que vimos, foi apenas o capitalismo brasileiro em ação no seu habitat natural: o conchavo.
- ARMANDO MENDES é jornalista em Brasília

mockup