Os judeus sabem muito bem o que é ser um povo sem terra, uma nação sem território. Viveram muitos anos assim e tiveram de lutar muito para conseguir que, depois da Segunda Guerra Mundial, fosse criado o Estado de Israel. Quando lutavam contra o mandato britânico na Palestina e contra os árabes que resistiam à criação de um Estado judeu, as organizações sionistas foram muitas vezes acusadas de terrorismo. E, efetivamente, muitas delas realizaram ações terroristas (até um mediador da ONU, o conde Folke Bernadotte, foi assassinado), mas vários de seus membros, como o ex-primeiro-ministro Yitzhak Rabin, chegaram a altos cargos no governo israelense.
A principal preocupação dos governos de Israel tem sido impedir a criação de um Estado palestino, a ponto de institucionalizar uma absurda tortura ‘‘moderada’’. Os palestinos, que lutam para constituir-se nação, também recorreram a ações terroristas. Yasser Arafat foi considerado o terrorista maior do Planeta. Hoje, é aplaudido na Assembléia Geral da ONU e recebido por chefes de Estado de todo o mundo. Frequenta até a Casa Branca.
Mas isso não é exclusividade do líder palestino. São muitos os presidentes, primeiros-ministros, ministros, generais e parlamentares de diversos países que no passado - às vezes não tão distante - foram tachados de terroristas. De direita ou de esquerda. Alguns, com razão, outros porque ‘‘terrorismo’’ é uma acusação fácil de ser feita a quem pega em armas para combater um sistema político, um regime ou um governo.
Aqui mesmo, no Brasil, os governos militares chamavam de terroristas todos os que participavam de organizações políticas clandestinas, mesmo das que rejeitavam o recurso à luta armada. Algumas ações terroristas realmente ocorreram, mas nem todos se envolveram nelas. E explodir bomba em aeroporto, por exemplo, é terrorismo, mas assaltar banco nunca foi.
Para os sérvios que lutam para impedir a independência da província de Kosovo, seus adversários de etnia albanesa são, simplesmente, terroristas. Não é assim que pensam, porém, os governos ocidentais que ameaçam bombardear os sérvios em defesa dos separatistas de Kosovo. Quem tem razão?
Por isso é que sempre se deve ter um pé atrás quando alguém é acusado de terrorista. É preciso verificar, primeiro, a idoneidade do acusador. O líder do Partido dos Trabalhadores Curdos, Abdalá Ocalan, pode até se enquadrar direitinho no perfil de um terrorista, mas o governo da Turquia está longe de ser idôneo para acusá-lo.
A Turquia de hoje não é muito diferente da retratada pelo Expresso da Meia-Noite, filme que mostra a violência, a corrupção e a venalidade dos sistemas carcerário e judicial daquele país. Ninguém desconhece que as torturas contra presos, o assassinato de opositores e a violência contra a população civil ocorrem rotineiramente na Turquia, especialmente contra a minoria curda que quer a independência.
A maneira como as autoridades turcas quiseram humilhar Ocalan com a divulgação de sua imagem preso lembra o que o então ditador peruano Alberto Fujimori fez com o líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, exibido em uma jaula. A falta de respeito pelo inimigo derrotado é característica dos vencedores que não prezam a honra e a dignidade e, portanto, não merecem credibilidade.
Ninguém pode defender o terrorismo, mas a história tem mostrado que muitas vezes recorre-se a ele em desespero diante da repressão violenta. O governo da Turquia é tão ou mais terrorista que Abdalá Ocalan.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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