Acuados pelo crime
O Brasil está no ranking dos países mais violentos do mundo. Em números, supera inclusive alguns que estão em guerra declarada. Os brasileiros acusam a falta de segurança como uma de suas maiores preocupações. Em 2014, um terço dos cidadãos a recomendava ao governo como prioridade! E não é para menos! Os roubos e os latrocínios crescem abruptamente ano após ano. E em alguns Estados, há uma nítida sensação de que o poder público perdeu a guerra contra o crime. Prefeitos querem blindar as escolas com materiais à prova de bala. Lá fora, o Brasil é frequentemente associado a assaltos, sequestros, estupros e mortes violentas.
Porém, falar de segurança não é evidentemente trazer o assunto para as páginas policiais. Embora a responsabilidade última seja atribuída às secretarias estaduais, sabemos que um país seguro reflete algo mais profundo do que o aumento de policiais na rua. Aliás, vemos com tristeza como a reação ao aumento de crimes ou a práticas mais hediondas, se dá imediata e exclusivamente na esfera policial. Existe neste âmbito uma tremenda miopia que embaça a busca de soluções efetivas e eficazes.
O que leva alguém a matar por um tênis? A assaltar, a matar depois de roubar, a explodir um caixa eletrônico ou sequestrar? Com certeza, uma boa parte dos leitores dirá que não existirão razões lógicas ou sensatas para isso. Que pessoas normais não praticariam esses crimes. Antes de responder, é bom ter presente que qualquer sociedade organizada convive com o crime em níveis ditos "razoáveis", como se da mesma fizesse parte. Como diria Renê Ariel Dotti: "O crime, qual sombra sinistra, do homem nunca se afastou".
Não seria num artigo de jornal que abordaríamos todas as nuanças que envolvem o crime, mas creio que não devemos ter medo de dizer, que o modelo de sociedade afeta peremptoriamente a qualidade e o número de crimes nela cometidos. E a que nos referimos ao falar de modelo? Mencionamos em primeiro lugar as discrepâncias sociais escorchantes que nos envergonham há séculos e não há infelizmente sinais de serem sanadas. Falamos de uma justiça morosa e cara, e até ontem, seletiva nas condenações. Referimo-nos à corrupção generalizada que além de sugar os recursos a serem investidos na área, ainda se torna exemplarmente contraproducente, na medida em que estimula o crime. Sublinhamos o uso de drogas como causa imediata de muitos delitos. Constatamos a ausência de uma inteligência policial eficaz e integradora de todas as forças, que otimize os recursos humanos e técnicos de que dispomos.
O Brasil é um país de paz. Mas não está em paz! Os seus filhos buscam no crime a vida fácil para conseguir o que jamais terão; os criminosos em geral, acreditam que o crime compensa; os pequenos se inspiram nos grandes para as suas delinquências e, enquanto isso, as nossas cidades perdem a estética de tão engradadas que estão e as praças abandonadas servem de boca de fumo. Os cidadãos de bem são reféns do medo e da insegurança generalizada. Combater esta situação dramática, passa por uma reestruturação dos nossos ambientes urbanos. Precisamos repensá-los. Com um Estado acuado, a criminalidade se agiganta. O ambiente de "terra de ninguém", típico das grandes periferias é terreno fértil para células e bases instaladas de cometimento de crimes. É necessário valorizar as classes humildes que ali habitam e marcar presença com educação, saúde e estruturas esportivas e sociais. A parceria com entidades que defendem valores humanos e religiosos é imprescindível para um país que está longe de poder per si, satisfazer as necessidades de seus filhos.
O combate ao crime é acima de tudo o resgate do Brasil que todos desejam. Sonho com um país onde os índices caiam a patamares tolerados e mesmo assim nos incomodem.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na arquidiocese de Londrina
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