Acorda, Brasil
João Dias Ayres
Nós, da terceira ou quarta idade (ou melhor idade), acordamos cedo, descobrimos que a melhor maneira de esperarmos o café da manhã é ler os matutinos como a Folha de Londrina, ou ligar a televisão na Globo News ou no Canal do Senado ou no Canal Rural. E assim ativos, curiosos pelo novo dia que se inicia, ficamos informados – ou informatizados, para usar o jargão dos computadores. A propósito, há dois em casa. Um seria meu. Confesso que nas várias tentativas de um aprendizado relâmpago, fracassei. Meus netos dominam a tecnologia. Valho-me então do papel e da esferográfica para as impressões do dia.
O que me prendeu a atenção, dia desses, foi a matéria sobre o programa do presidente Fernando Henrique – ou Efeagá, como o rotula Luiz Fernando Veríssimo. Se eu não tivesse os ‘‘se’’ – olha aí o condicional ‘‘se’’, de Rudyard Kipling, aquela peça magistral em verso ‘‘If’’ – atrair-me-ía a tentar uma gozação, com o maior respeito, à mensagem presidencial lida naquele dia na Folha de Londrina, sobre o programa para desenvolver o Brasil até 2003, sob o lema ‘‘Avança Brasil’’. Na mensagem, pude anotar três ou mais ‘‘se’’.
FHC demonstra vontade muito forte, nos postulados para desenvolver o País, na tentativa heróica de tirá-lo dessa nhaca em que estamos nos acostumando a viver. Como diria Riobaldo, personagem de ‘‘Grandes Sertões: Veredas’’, de Guimarães Rosa, ‘‘viver é difícil’’ – nesta conjectura, acrescentaríamos. De Euclides da Cunha, passando pelo sanitarista Oswaldo Cruz, e principalmente Belisário Pena, os problemas nacionais de subdesenvolvimento não foram equacionados.
É necessário, é urgente, em primeiro lugar, combater o analfabetismo, que atinge 30% dos nossos irmãos, e, ao mesmo tempo, acabar com as doenças de massa, começando pelas endemias, as verminoses em geral, a esquistossomose em particular e a Doença de Chagas, uma vez que a ciência dispõe de armas poderosas e de máxima eficiência. Nem falaríamos nas demais endemias atreladas ao analfabetismo crônico.
Poucos dias antes de morrer, o professor Milton Alcover, ilustre cientista londrinense que trabalhou, escreveu e fez pesquisas até os 84 anos (ele morreu dia 12, domingo passado), em entrevista à Folha Rural, da Folha de Londrina, conceituou, na sua atualizada e experiente opinião, que o básico para o desenvolvimento do País não mudou em seus princípios: educação e saúde.
Indiscutivelmente, o professor Milton Alcover, que fez pesquisas sobre o trigo e melhoramento genético, como a variedade IA-5 (que abriu as possibilidades para uma auto-suficiência com estas pesquisas), foi um desses nomes que deveriam ter sido acrescentados à plêiade de nossos valores culturais, enfilerando-o no ranking daqueles que estabelecem as premissas para o nosso levantamento sócio-econômico.
É uma pena que o governo não tenha entre suas metas importantes, um espaço para dedicar uma atenção especial a homens como Milton Alcover, que poderia ter sido integrado numa estrutura para uma espécie de ‘‘Conselho de Mestres’’ – na antiga Grécia, seria ‘‘Conselho de Sábios’’ – com assento em um órgão de planejamento do País, um conselho superior apolítico, sem consistência ideológica de qualquer espécie, mas de governo, para o progresso do Brasil.
A propósito, o empresário paulista Antonio Ermírio de Moraes (que além de grande industrial, é provedor da Santa Casa de São Paulo), tem aconselhado o presidente FHC a visitar o Brasil o máximo possível, em excursões para sentir os problemas. Enfatiza Antonio Ermírio com sua sabedoria e competência, que nosso querido presidente iria ter condição de realizar o milagre de fazer o Brasil saltar para o futuro. Temos certeza de que isso iria acontecer, e não teria FHC de usar o condicional ‘‘se’’.
O brasileiro é bom, é confiável, e espera, por sua vez, receber confiança. É melhor confiar do que desconfiar. Desconfiar exige um aparelhamento fiscalizatório que sacrifica a produção de bens e emperra o País numa burocracia irracional. Presidente: confie no povo e nos seus filhos. Devemos correr atrás do trem do progresso e realizar o milagre esperado. É preciso pensar urgentíssimo no hoje, no agora, diminuir o preço do combustível, duplicar nossas estradas, cuidar de nossos portos.
É preciso deixar de contemplar o próprio umbigo. Nossos portos não têm pier, um processo adequado à nossa tonelagem de exportação, que aumenta e pede espaço no mundo atual. Modernizar nossos portos é medida indispensável. Do jeito que eles estão, cai o rendimento do produtor e este empobrece e fica desestimulado de enviar sua produção.
Acorda, Brasil, levanta do seu ‘‘berço esplêndido’’, assuma o progresso que nos bate à porta. Não sejamos caudatários do progresso. Se o governo atender às informações de órgãos técnicos de pesquisa como IBGE, FSalc, Iapar, Embrapa e outros, verificará que as amarras que nos prendem ao subdesenvolvimento podem ser rompidas com facilidade.
- JOÃO DIAS AYRES é médico em Londrina

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