Jader Barbalho versus Antonio Carlos Magalhães. PMDB versus PFL. Muito mais que uma disputa pelo poder, a briga pela presidência do Senado – cuja eleição será hoje, juntamente com a da Câmara Federal – está expondo à população uma ferida que muitos evitam olhar e a maioria insiste em não tratar: a da impunidade e falta de ética na política brasileira.
Recentemente, o atual presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL), chegou a anunciar de forma demagógica que criaria uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a origem do patrimônio de alguns políticos envolvidos em denúncias. ACM queria apenas amedrontar Barbalho, ignorando o recém-lançado livro ‘‘Memória das Trevas’’, do jornalista baiano Teixeira Gomes, que conta parte da própria história de ACM, farta matéria-prima para muitas CPIs.
Quando anunciou a criação da referida CPI (proposta que se perdeu em meio à disputa pela presidência do Senado), ACM chegou a dizer que isso ajudaria a mudar a imagem ruim que a maioria da população tem da classe política. Mais uma vez, demagogia! As mudanças que a população deseja devem começar na postura pessoal do próprio senador.
Também o senador Pedro Simon (PMDB-RS) afirma estar constrangido com tantas denúncias envolvendo seus colegas. Como um paladino, Simon prometeu combater pessoalmente a corrupção no setor público. O que faz neste exato momento o Simon Quixote que não levanta sua lança contra os dragões ACM e Barbalho e inicia as investigações sobre as graves denúncias que pesam sobre os dois companheiros de Senado?
Quando estão sob a mira dos meios de comunicação, nossos políticos falam em moralização e no fim da impunidade, pois eles próprios sofrem com a fama de corruptos e ladrões. Mas o discurso tem ficado muito distante da prática. A disputa pela presidência do Senado vem expondo à população brasileira fatos que merecem muito mais que uma CPI. São verdadeiros casos de polícia.
Entretanto, todos cruzam os braços, com medo de se envolver com ACM. Dizem que é ‘‘briga de gente grande’’. Enquanto isso, o Brasil – esse ‘‘gigante pela própria natureza’’ – continua perdendo o sono com a impunidade, a violência e os desmandos.
A impunidade é um câncer neste País e a palavra ética parece que foi banida do dicionário político brasileiro. Os acordos de bastidores, os conchavos, a troca de favores e a infidelidade partidária são algumas das práticas diárias nos gabinetes e corredores do poder, mostrando o distanciamento da ética e da moralidade.
A briga entre Barbalho e ACM tem recheado o noticiário nacional com denúncias que não podem ficar só no papel. Ou será que todas as denúncias são infundadas, que a imprensa está sendo leviana e que o melhor caminho é mesmo ignorar os fatos revelados? Se esse raciocínio é verdadeiro, então, que se esclareça à população.
O fato é que nós, cidadãos comuns, sentimo-nos cada vez mais humilhados e desanimados com o comportamento da nossa classe política. O discurso de ACM não convence, pois ele não pode falar em moral e ética sem dar o exemplo. O discurso de Barbalho também é vazio, pois quem não respeita as leis não pode exigir seu cumprimento (aliás, quem não respeita as leis não deveria sequer redigi-las no Senado).
A ferida da impunidade está novamente aberta e o paciente chamado Brasil continua esperando alguém que o ajude a fechá-la definitivamente.
- CLÁUDIO SLAVIERO é empresário em Curitiba, vice-presidente e coordenador do Conselho Político da Associação Comercial do Paraná

mockup