Vítor Ogawa
Reportagem Local
Entre 30% e 35% da população paranaense de 15 a 18 anos estão com sobrepeso. O índice é equivalente aos níveis de obesidade registrados nos Estados Unidos. A informação foi repassada pelo coordenador do projeto Paraná Saudável, que visa a prevenção e o controle da obesidade infantojuvenil no Estado, Dartagnan Pinto Guedes.
  Segundo ele, o dado foi extraído de uma pesquisa realizada em 2009. Em maio deste ano, no entanto, será feito um levantamento semelhante, realizado por amostragem, com cerca de 16 mil estudantes de um total de 2 milhões. Um questionário de 80 itens será aplicado para investigar os hábitos alimentares e do cotidiano dos alunos dos ensinos Fundamental e Médio.
  Serão avaliados alunos de três cidades de cada um dos 32 núcleos regionais de educação do Estado. No levantamento realizado em 2009 foi constatado que 60% da população entre 15 e 18 anos não consomem verduras diariamente, 40% delas são sedentárias e 21%, fumantes. O estudo indicou ainda que os casos de sobrepeso são dez vezes maiores do que os de subnutrição no Estado.
  De acordo com Dartagnan Guedes, que é professor de Educação Física da Unopar, em Londrina, o resultado do levantamento deste ano será usado como base para a produção de um material de orientação sobre hábitos saudáveis de alimentação. O público-alvo serão pais, professores e, claro, os alunos das escolas estaduais. Outra meta do Paraná Saudável é encaminhar estudantes com sobrepeso para programas de saúde preventivos.
  O coordenador do Paraná Saudável adverte, no entanto, que a guerra contra a balança só será vencida se houver uma mudança de cultura alimentar.

  O chef inglês Jamie Oliver realizou recentemente um trabalho na Inglaterra para mudar a merenda escolar para evitar o sobrepeso das crianças, mas enfrentou muita resistência tanto por questões burocráticas, quanto pela dificuldade em mudar hábitos consolidados na população. Como fazer para que a resistência às mudanças seja menor no Paraná?
  Nós tivemos contato com inúmeros projetos realizados em todo o mundo e todos eles estão servindo de experiência para ajustar ao que achamos ser mais adequado a nossa realidade. No caso da Inglaterra, o que aconteceu foi que o projeto agiu principalmente na escola, no servir o alimento. Mas nós queremos educar as crianças a se alimentarem, pois fora do ambiente escolar existe uma participação efetiva da família, uma vez que o sobrepeso é um desequilíbrio da ingestão e do gasto de calorias e isso só deverá modificar de acordo com a mudança da cultura alimentar.

  É possível combater a obesidade infantil nas escolas mesmo com a alimentação inadequada dentro de casa?
  A família possui uma participação muito forte na alimentação de seus filhos, por isso o projeto de prevenção e controle da obesidade infantojuvenil realizará ações não só na escola, mas também com a família, com ações educativas atuando em três níveis. Nós realizaremos a distribuição de textos e promoveremos ações educativas para os professores, para as famílias e para os alunos, que serão divididos por faixa etária. Cada material terá uma linguagem adequada ao seu público. O objetivo é mudar os hábitos alimentares e para isso precisamos levantar os fatores associados ao sobrepeso para identificar a realidade no Paraná.

  Os índices do Brasil se aproximam dos americanos. Por que nossos hábitos pioraram tanto, já que a fast food não é tão consumida por aqui quanto por lá?
  Os paranaenses já possuem índices de sobrepeso similares aos americanos. Cerca de 30% a 35% dos paranaenses entre 15 e 18 anos possuem sobrepeso. Esses dados foram obtidos em uma pesquisa realizada em 2009 e que constatou outras informações importantes como a de que 60% deles não consomem verduras diariamente e 40% deles declararam que são sedentários. Outro dado preocupante é que 21% deles se declararam fumantes. São hábitos que contribuem para o sobrepeso.
  Em maio realizaremos um levantamento por amostragem em 16 mil escolares dos 32 núcleos regionais de educação. Cada núcleo terá três cidades pesquisadas, totalizando 96 cidades, para identificar escolares que apresentem sobrepeso e quais os fatores ambientais colaboram para que isso ocorra. É um instrumento que elaboramos composto po 80 itens, que levantará desde o período em que o aluno frequenta até informações de cunho mais abrangente como a intensidade da prática de atividades físicas e se eles estão inseridos no mercado de trabalho.

  Há saída para o sedentarismo infantojuvenil na era do computador e do videogame?
  Nós não podemos nos afastar dos avanços tecnológicos. O que precisamos fazer é nos adaptar a essa sociedade moderna e não deixar de lado a atividade física. Quando estamos trabalhando no computador ficamos sedentários e isso acontece com todas as atividades de tela, como o televisor, o videogame, por isso temos que fazer um esforço físico para conciliar o lazer eletrônico com a atividade física. Existem videogames que possibilitam realizar exercícios como o XBox e o Wii, mas eles não estão disponíveis entre a grande população, que está tendo dificuldades em realizar atividades como a natação, tênis e lutas. Mas as pessoas estão tendo dificuldades até mesmo para praticar o futebol devido à falta de espaço e de segurança. Por isso, existe a necessidade do Estado investir na prática do esporte. No caso de resgate de brincadeiras antigas, elas estão perdendo a concorrência para conquistar o interesse das crianças para as brincadeiras modernas. A TV, por exemplo, apresenta novidades a todo instante. Entre o videogame e a bolinha de gude, os eletrônicos chamam mais a atenção.

  As crianças hoje não podem brincar na rua e muitas não contam com atividades no contraturno nas escolas...
  O contraturno foi uma das ações mais efetivas na tentativa de oferecer uma atividade física para os estudantes. No Brasil o processo dessa iniciativa ainda está iniciando, mas em países da Europa e nos Estados Unidos essa medida vem obtendo um sucesso muito grande. O ideal seria que toda escola tivesse o contraturno, mas ainda temos muito o que fazer, por isso a família tem que ser acionada. A família precisa se engajar para proporcionar mais oportunidades, pois hoje as brincadeiras são mais individuais do que coletivas.

  As cantinas ainda vendem alimentos não saudáveis nas escolas? O caminho é proibir a comercialização de salgadinhos refrigerantes e doces, por exemplo?
  Eu acho que o Estado deve gerenciar as cantinas em escolas públicas, assim como não permite que papelarias se instalem dentro das escolas para a venda de material escolar. Eu acho que a proibição de determinados tipos de alimentos é perigosa e tende a aumentar o consumo desses alimentos, pois é o que acontece com o álcool e o tabaco. O ideal mesmo é que o aluno seja educado para evitar esses tipos de alimentos prejudiciais à saúde.

  A merenda das escolas públicas são suficientemente balanceadas e saudáveis?
  As merendas em geral são bem balanceadas, pois existe um setor cuja função é cuidar disso. O problema são as cantinas comerciais dentro da escola, pois elas utilizam gorduras e carboidratos que são mais baratos comercialmente. O fato da pessoa estar com sobrepeso não significa que ela está bem nutrida. Se a alimentação for incorreta, ela pode apresentar casos de subnutrição, como a deficiência de ferro.

  Hoje grande parte dos brasileiros não faz mais as refeições em família. A perda desse costume é prejudicial para a consolidação de hábitos alimentares saudáveis entre as crianças?
  Temos no Brasil uma dificuldade muito grande, pois aqui o horário de trabalho em geral é das 8 horas às 18 horas, diferentemente da Europa, onde o comércio fica aberto das 8 horas às 22 horas e podem ser criados dois turnos que permitem que os pais se revezem no cuidado com os filhos. Aqui os pais que trabalham precisam deixar os filhos com outras pessoas responsáveis por cuidar da alimentação dos filhos e esses cuidadores são pessoas chave no desenvolvimento da pessoa.

mockup