ACIDENTES COM CRIANÇAS - Grande maioria das ocorrências poderiam ser evitadas
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segunda-feira, 06 de outubro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
O bebê Cauã Felipe Massaneiro foi salvo por uma fralda descartável ao cair do terceiro andar de um prédio em Recife (PE), em setembro. Nas últimas semanas, o menino Alcides Fortunnato Júnior, de apenas três anos, não teve a mesma sorte e morreu após cair do sexto andar de um prédio no Centro de São Paulo.
O que para muitos pode soar como fatalidade, para quem convive com o assunto é falta de informação. É o que afirma a coordenadora do Projeto Criança Segura em Curitiba, Ingrid Stammer. Na entrevista à FOLHA, Ingrid apresenta números, dá dicas de quais cuidados os pais devem tomar e ressalta a educação para a prevenção como caminho. ''Criatividade e bom senso colaboram, mas não estão isoladas. É preciso educar as crianças nesse contexto de prevenção''.
Muito se fala sobre o aumento no índice de acidentes domésticos envolvendo crianças. Há uma explicação para isso?
Não. O que acontece é que agora esses acidentes estão sendo mais divulgados. Desde 2001 trabalhamos na Criança Segura no Brasil exclusivamente com a missão de promover a prevenção de acidentes domésticos e de trânsito. Se analisarmos os dados, de 2000 a 2005, verifica-se uma redução bastante tímida, muito pequena do número de acidentes. Todos os anos, no Brasil, cerca 6 mil crianças morrem vítimas de acidentes na faixa etária dos 0 aos 14 anos. E mais: na faixa etária de 1 a 14 anos, nós temos os acidentes como a principal causa de mortes.
A falta de uma cultura de prevenção é a grande vilã nesse processo?
Sem dúvidas. Espera-se chegar a um cenário complicado para que possa falar em prevenção de um modo geral. Isso não faz parte da nossa cultura. Os acidentes, infelizmente, ainda não são entendidos como algo que poderia ter sido evitado, eles ainda estão muito associados a fatalidades, providências do destino, providências divinas.
E muitas vezes não são fatalidades?
Há estudos feitos nos Estados Unidos desde 1987 mostrando que 90% dos acidentes com crianças poderiam ser evitados. A questão é que falta informação. Precisamos chamar a atenção para alguns cuidados nos ambientes com crianças para que elas fiquem em maior segurança. Uma criança sozinha não consegue zelar por si própria, pois ela tem algumas características físicas e emocionais de seu desenvolvimento que fazem com que esteja tão vulnerável aos acidentes. Por isso é tão importante a ação dos adultos.
Na lista de adaptações, o que considera essencial dentro de uma casa?
Como a criança está explorando o mundo, muitas das coisas que para nós, adultos, passam despercebidas, para as crianças são grandes motivos de entretenimento. Para que quedas, intoxicações e queimaduras sejam evitadas dentro do ambiente doméstico, recomenda-se a instalação de grades e redes de proteção nas janelas e portõezinhos no topo das escadas. Manter produtos de limpeza e de higiene pessoal fora do alcance das crianças, em locais mais altos, trancados, se incluem na lista. A cozinha, por exemplo, é um local que oferece muitos riscos. Tanto por queimaduras como por objetos perfurantes, até mesmo produtos de limpeza. Devemos restringir a passagem de crianças para esse cômodo. Manter o cabo da panela sempre virado para o fogão pode evitar queimaduras, bem como devemos estar atentos à questão do álcool líquido, que é um grande causador de queimaduras. A sugestão é que o álcool líquido seja substituído por produtos com menor grau de inflamabilidade. Outro risco são os afogamentos, que podem acontecer a partir de 2,5 cm de água, em um balde, uma bacia. Daí a importância da supervisão de um adulto, tirando do acesso das crianças esses recipientes com água.
Há quem alegue não ter dinheiro para fazer essas adaptações...
Muitas adaptações podem ser feitas com baixíssimo custo. Se não tivéssemos tantos móveis próximos às janelas, certamente não teríamos tantas notícias envolvendo acidentes. Com a proximidade, as crianças escalam esses móveis e têm um acesso mais fácil à janela. Nesse caso, não há custos. Trata-se de um olhar especial. O mesmo vale para as tomadas: se não há a possibilidade de comprar um protetor em lojas de utilidades domésticas, podemos utilizar uma fita isolante, uma fita crepe ou até mesmo colocar um móvel em frente a essa tomada. Criatividade e bom senso propiciam essas alterações, mas não estão isoladas. É preciso educar as crianças nesse contexto de prevenção.


