O desastre da usina nuclear de Fukushima, na esteira do terremoto e do tsunami que arrasou a costa nordeste do Japão em 11 de março deste ano, colocou em xeque uma história longa, recheada de altos e baixos, que a nação mantém com a preservação do meio ambiente.
Um dos países que mais se industrializaram no período posterior ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão também foi um dos líderes, durante os anos seguintes, do ranking mundial da degradação ambiental. Na ausência de preocupação com o tema naquela época, comprometeu-se a qualidade da água, do ar e do solo, e produziram-se alguns dos mais graves casos de contaminação humana por vazamento de efluentes químicos em grandes fábricas e indústrias do mundo.
O país, porém, aprendeu com os erros e passou, a partir de meados da década de 1960, a criar legislações rígidas de controle ambiental. O resultado foi um dos casos mais eficientes da história da recuperação de ecossistemas e áreas degradadas.
Atualmente, segundo o diretor da Hyogo Environmental Advanced Association (HEAA), Jiro Eiho, o eixo principal da política ambiental japonesa passou a focar as medidas de combate ao processo de aquecimento global e de mudanças climáticas. No pilar desta política, está o desenvolvimento de plantas de energia nuclear, que ajudam a reduzir a emissão de CO2.
A HEAA é um órgão executivo do governo de Hyogo - província japonesa que estabeleceu alguns dos mais rígidos padrões de controle ambiental do país. Junto com a Japan International Cooperation Agency (JICA), a entidade presta apoio ao Projeto de Monitoramento da Qualidade de Água do Ribeirão Cafezal, em Londrina, encabeçado pelo Instituto Ecometrópole, UTFPR, Sanepar e Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema).
Nesta entrevita, Jiro Eiho abordou o histórico ambiental do Japão e o dilema que o país enfrenta atualmente: manter a energia nuclear e reduzir a emissão de CO2 ou reduzir o programa nuclear e voltar a emitir mais CO2.
Como o Japão conseguiu recuperar os danos ambientais a partir do final da década de 1960?
Primeiro: por lei, se uma indústria não faz o tratamento dos seus resíduos, ela tem que pagar multas e seus controladores ficam sujeitos à prisão. Isso é uma determinação legal. Além disso, houve um treinamento muito intenso junto às indústrias - uma parceria entre a iniciativa privada e o governo. Também é importante destacar que as medidas não vieram de cima para baixo, por meio do governo federal. Na verdade, cada região do Japão começou a perceber que a coisa estava ficando muito grave e, por iniciativa de órgãos regionais, começaram as ações de conscientização junto às fábricas e a todo tipo de atividade que acaba causando algum problema de poluição. Houve também, por parte da população que sofria com esses problemas, uma pressão muito grande sobre as autoridades.
Qual o resultado disso hoje na qualidade da água e do ar?
Atualmente os padrões de qualidade são muito bons, praticamente não temos mais problemas nesta área. Hoje nossa maior preocupação é quanto às mudanças climáticas. É para isso que nossos programas de educação ambiental estão voltados.
Quais os impactos do desastre da usina nuclear de Fukushima sobre esses programas?
Bom, já de algum tempo as indústrias japonesas têm metas definidas de diminuição da emissão de carbono - assim como o governo. A avaliação que se faz é que as emissões estavam diminuindo, mas agora, com o desastre que houve, provavelmente o Japão não vai conseguir cumprir a meta.
Quais as lições desse episódio no contexto ambiental e energético do país?
Existem algumas alternativas para gerar energia no Japão, além da energia nuclear, mas isso não é suficiente para sustentar o país como um todo. O fato é que nosso plano inicial para reduzir a emissão de carbono era totalmente baseado na utilização de energia nuclear. Mas agora, com esse acidente, a situação mudou. Agora existe um movimento muito grande no Japão contra o uso da energia nuclear, por causa do acidente. Só que, na realidade, se começarmos a utilizar outras fontes de energia, isso deve aumentar a emissão de gases. Dessa forma, fica impossível cumprir as metas de redução de emissão de carbono.
A pressão tem sido suficiente para mudar o programa nuclear japonês?
De modo geral, a maior parte dos japoneses hoje pensa que se deve reduzir a utilização de energia nuclear, que não dá para ficar nessa situação. Por outro lado, também sabemos que não dá para simplesmente dizer que a partir de agora a gente não quer mais e desativar tudo. Isso é inviável diante das necessidades do país. Então, tem que se pensar a longo prazo sobre como proceder sobre as fontes de energia.
A situação de Fukushima hoje ainda preocupa?
O perigo maior, que era o aquecimento dos reatores, já passou, isso está controlado. Agora, a preocupação é com a descontaminação da água utilizada no resfriamento dos reatores. Há um equipamento importado utilizado nisso que já apresentou muitos problemas. Então, agora está se falando em utilizar alguma coisa de fabricação japonesa e numa meta para, até janeiro do ano que vem, resolver isso.
Fukushima foi pega de surpresa com o tsunami?
Na verdade, a altura máxima prevista para tsunamis naquela região era de 5,7 metros - isso com base em vários estudos técnicos e no movimento das placas tectônicas, que provocam os terremotos. Só que veio um tsunami de 14 metros. Então, agora a dúvida é se houve falha nos cálculos ou se foi algo realmente muito além do que se poderia esperar.

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