Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, ensinam os mineiros. Pois bem: é preciso ter muita cautela com os dados de pesquisa eleitoral. E, mais ainda, é preciso muito cuidado quando se interpreta uma pesquisa. Recente pesquisa feita pelo Datafolha constata, por exemplo, que 33% dos paulistanos se colocam mais à direita no espectro político, enquanto 46% declaram preferência também por candidatos direitistas. Ora, Marta Suplicy, do PT e da esquerda, lidera a intenção do voto na capital paulista, com cerca de 30% da preferência. Trata-se de uma incoerência, contradição ou as pesquisas estão erradas?
Nada disso. Algumas respostas para a questão: primeiro, o eleitor brasileiro costuma fazer uma distinção entre perfis e partidos. O mesmo eleitor que votou em Jânio, por exemplo, elegeu, depois, Luiza Erundina, que, na época, era do PT. Segundo, a questão ideológica perde densidade, nesses tempos de globalização e imbricação de ideologias, doutrinas e conceitos. Terceiro, os eleitores tendem a votar mais em candidatos com alto grau de visibilidade, próximos, que passem maior intimidade e identificação com seus anseios. Quarto, o posicionamento político muda muito em função de aspectos da conjuntura. Em resumo: a relatividade é alta no campo da decisão política. Nada é definitivo.
Por isso mesmo, muito cuidado com as pesquisas eleitorais. A campanha, sob o aspecto da visibilidade, ganhará dimensão, a partir da programação gratuita no rádio e na TV, que começa no dia 15. Grande parte do eleitorado poderá migrar de posição. E tal mudança se dará em função de fatores, clima e ambiente de campanha. A postura do candidato na TV, por exemplo, será relevante. O conteúdo das propostas, a forma de apresentação, a objetividade, a clareza, a sinceridade de propósitos constituirão elementos importantes para a decisão do eleitor. A cobertura de imprensa é outro fator importante. Por mais que a imprensa procure se pautar pela imparcialidade, abordagens e espaços favorecem mais a uns que a outros candidatos.
As pesquisas também influenciam o comportamento do eleitor, principalmente nos momentos finais de campanha. Conseguem arrumar patrocínios financeiros para candidatos com melhores posições. E dinheiro aumenta os esquadrões de rua, os esquemas de mobilização, multiplica os materiais de comunicação, abre espaços políticos. É claro que a postura de um candidato na campanha é fator decisivo. Se conseguir operar o milagre da onipresença, fazendo-se presente em todos os bairros, todas as ruas, todos os dias, estará realizando a meta prioritária de uma campanha: falar com cada eleitor, pedir voto a cada um, praticar o jogo da imbatível comunicação direta e recíproca entre candidato e cidadão.
Se deseja maximizar seus potenciais, o candidato tem ainda um tempinho para se preparar: consolidar seu discurso, selecionando três a quatro idéias fundamentais; discorrer sobre essas propostas com grande conhecimento de causa, inclusive expressando situações comparativas, citando dados e números, demonstrando a forma de execução das idéias; amparar-se em pesquisas sobre o nível de desejos e expectativas do eleitorado; treinar a capacidade de articulação e fluidez de idéias; ter noção de síntese e objetividade; demonstrar, sempre, segurança na defesa dos pontos de vista; não se intimidar com ameaças de adversários; não se abater com os fracos índices de pesquisa; e, de outro lado, não colocar sapato alto e acreditar que a campanha está ganha, em função de altos índices de pesquisa da fase inicial de campanha; submeter-se a uma agenda ágil, criativa e planejada sob o rigor das prioridades; saber administrar com competência, equilíbrio e autoridade as pressões e contrapressões rotineiras de uma campanha eleitoral.
A partida só se encerrará no dia da eleição, em 1º de outubro. Para alguns, haverá um segundo tempo com o apito final em 29 de outubro. Entre os 52 prefeitos do País a serem eleitos em segundo turno, seguramente alguns serão aqueles que saíram bem atrás no início da campanha. No Brasil, as circunstâncias fazem o momento e determinam a decisão do eleitor. Atentos, portanto, aos ventos da política, que se comparam aos fluxos e refluxos das marés. Não há força que consiga desviar o vento da natureza.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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