Acertando os ponteiros
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Ronaldo Lessa 
No ano passado, quando se discutia a aplicação do horário de verão, manifestei aos meus colegas governadores do Nordeste e às autoridades da República o meu convencimento sobre a necessidade de a nossa região acertar os ponteiros do tempo em relação ao meridiano do Observatório de Greenwich, na Inglaterra.
Naquela época, a tônica do racionamento ainda não determinava, mas eram robustos os argumentos em prol da correção da chamada ''hora legal'' do Brasil. Diante de natural reação difusa na sociedade, decorrente de ligeira mudança cotidiana de hábitos, minha argumentação tornou-se voz minoritária.
Agora, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), divulga dados pelos quais comprovam que o Nordeste foi a região que mais economizou energia e, mesmo assim, não atingiu o índice de 20%, cresce a perspectiva de o governo federal estabelecer novas medidas de contenção do consumo energético.
O temível Plano B definição de feriados semanais e até apagões é outro fantasma desejando espantar o processo de desenvolvimento da região nordestina, com mais recessão e desemprego para os trabalhadores. Volto a externar meu convencimento: o horário de verão é uma alternativa concreta, cuja prática precisa ser instituída em definitivo, recorrendo até a nossa própria história.
Basta viajar no tempo e retornar a 5 de novembro de 1913. Naquela data, o presidente da República, Hermes da Fonseca, baixou o Decreto 10.546, que regulamentou a ''hora legal''. Com base em suas particularidades, cada país institui uma (ou até mais) ''hora legal'', que pode até não corresponder ao fuso em que se encontra. Com o decreto de 1913, Fonseca, que era sobrinho do proclamador da República, o alagoano Deodoro da Fonseca, estabeleceu que os Estados situados no Nordeste pertencem ao segundo fuso, o que representa menos três horas em relação a Greenwich.
Com base em Greenwich, Fernando de Noronha, Brasília e Manaus estão, respectivamente, nos meridianos de 30, 45 e 60 graus. A costa leste do Nordeste situa-se no meridiano de 35 graus. Quer dizer: a referência do nosso horário é muito mais próxima de Fernando de Noronha do que de Brasília. Prova-se, assim, que ''envergaram'' o meridiano. Os Estados nordestinos terminaram na ''hora legal'' de Brasília, quando deveriam ser astronomicamente vinculados ao tempo de Fernando de Noronha. Caso seja obedecido o meridiano, o dia nordestino teria o alvorecer às 6h20 e o pôr-do-sol às 18h20.
Defendo, enfim, a correção de nossa ''hora legal'' com base em Fernando de Noronha. Esta região precisa se desenvolver, recuperar o tempo perdido do passado e fazer os ajustes sociais necessários, agravados por esse modelo que vem ao longo do tempo alimentando as desigualdades.
É inconcebível imaginar o Nordeste em ritmo de apagão. Até porque produzimos mais energia do que consumimos. Esse acerto definitivo de ponteiros, à véspera da alta estação, é saudável para nossa economia, anima a máquina turística e pode proteger os setores produtivos de novos traumas.
Além do mais, vamos proporcionar aos nativos e visitantes mais tempo para contemplar as belezas de nossas praias de águas mornas e cristalinas.
- RONALDO LESSA é governador de Alagoas


