Recentemente, alguns veículos de comunicação eletrônica inundaram as telas com histórias de heróis do cotidiano; brasileiros humildes que, embora desprovidos de muitos equipamentos eletroeletrônicos e já com um consumo muito baixo, conseguiram atingir sua meta de contenção no uso da energia elétrica, livrando-se de um eventual, injusto e vexatório corte no fornecimento. Em outras oportunidades, os personagens escolhidos foram executivos ou diretores de empresas que também atingiram seus objetivos e livraram-se do apagão.
Não há nada de errado em relatar o esforço dessa brava gente ou enaltecer o espírito de colaboração tradicional do povo brasileiro. O problema começa quando este elogio à solidariedade serve para deslocar o eixo central da discussão. Não pretendo aqui dizer o que a imprensa deve ou não publicar. Porém, humildemente e como leitor, acredito que, quando uma multinacional de grande porte anuncia que conseguiu cortar à metade seu consumo de energia, como ocorreu, recentemente, com uma empresa do setor de bebidas, a principal pergunta a ser feita me parece que é: a qual preço e à custa de quantos empregos?

Nas últimas semanas, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, entidade que não se caracteriza exatamente por disseminar o pânico entre o setor produtivo, divulgou estudo em que previa um índice de crescimento próximo de zero para a indústria paulista em 2001, jogando por terra todas as perspectivas otimistas e os bons resultados obtidos no primeiro semestre.

Não meramente por coincidência e demonstrando que não se trata apenas de ''choro'' do empresariado o governo do Estado de São Paulo anunciou nos últimos dias que a variação na arrecadação do ICMS este ano também deve ficar próxima de zero. Junte-se a isto a ponderada análise da equipe econômica do governo federal, revisando a expectativa oficial de crescimento do PIB de 4% para 2%, e teremos um quadro mais realista do verdadeiro efeito que a atual crise energética está provocando.

Atribuir parte significativa de nossas dificuldades aos problemas estruturais da Argentina é, feitas as contas, história ''para inglês (ou indonésio ou japonês...) ver'', embora Tony Blair tenha ficado mais impressionado com outras cascatas: as de Iguaçu. O aperto de nossos vizinhos tem causado alguma confusão internacional e atrasado investimentos externos, mas principalmente o volátil capital especulativo, pouco ou nada prejudicando a atividade produtiva. O apagão, este sim, impulsionado pela incompetência, imprevidência e oportunismo de setores governamentais, tem-se mostrado um inimigo à altura de nossa economia.

Estamos pagando, todos, por um crime que não cometemos. E o pior é que os responsáveis por nosso julgamento não parecem muito interessados no destino dos réus. Afinal, as autoridades federais acabaram de reconhecer publicamente que, talvez, não possam sequer garantir aos brasileiros que atingiram sua cota de redução de consumo aquele bônus inicialmente prometido. Em outras palavras: o truque foi bonito e bem executado, mas os torrões de açúcar foram todos gastos no adestramento e a recompensa vai ficar para uma outra vez...

Na mesma linha, choca o tratamento diferenciado que as autoridades econômicas vêm oferecendo a setores distintos da sociedade. Há não muito tempo, instituições financeiras em profunda crise de recursos e ameaçadas de insolvência, mereceram a criação de detalhado e criativo programa de socorro. O Proer salvou diversas instituições bancárias, com dinheiro público, e não faltaram na oportunidade vozes, argumentos e empenho para provar que aquela era uma medida necessária e saudável para o País.

Pois bem, vivemos no setor produtivo também um momento dramático e que exige soluções criativas. Não adianta culpar a situação da Argentina ou a falta de chuvas toda vez que pequenas e médias empresas demitem, fecham suas portas ou quando grandes montadoras instituem férias coletivas, cancelam investimentos e ameaçam sair do Brasil, ainda que haja nessa ameaça sempre um componente de blefe.

As empresas brasileiras, por seus próprios méritos, vinham contribuindo para o equilíbrio das contas externas e, consequentemente, via aumento na arrecadação fiscal, para a superação do grave déficit público. De repente, um de seus insumos básicos, a energia, foi praticamente cortado ou indiretamente sobretaxado, por absoluta inépcia dos condutores de nossa política energética.

Por conta de todo este histórico, não me parece pedir muito que essas mesmas autoridades ofereçam ao empresariado, e particularmente à indústria maior prejudicada em todo o processo algum esforço intelectual e político na busca de soluções ou de iniciativas capazes de minimizar os prejuízos até agora causados à economia brasileira.



- FLÁVIO MARQUES FERREIRA é industrial em São Paulo

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