Acabaram as ideologias? - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
Na década de 60, era fácil ser de esquerda ou de direita. Tudo estava claramente dividido. De um lado ficava a direita, cruel e egoísta, que queria manter as coisas do jeito que estavam para continuar usufruindo de todos os benefícios. Para isto, os da direita escravizavam impiedosamente os pobres, vivendo à custa de sua exploração. A encarnação do mal e, portanto, do capitalismo, correspondia aos Estados Unidos, responsável por todas as desgraças da América Latina.
Do outro lado situava-se a esquerda, magnânima, revolucionária, defensora dos pobres e oprimidos. Na esquerda, o bloco soviético parecia imperecível. A China era ao mesmo tempo um espanto e uma fascinação. E Fidel Castro, que acabara de tomar o poder em Cuba, convertia-se no símbolo da esperança revolucionária da América Latina contra os pérfidos ianques.
No Brasil, o maior número de intelectuais, parcela da Igreja Católica, organizações partidárias ou sindicais de esquerda, orgulhavam-se do seu bom caráter, do seu idealismo, do seu altruísmo. Criar uma nova sociedade era meta empolgante, capaz de dar sentido a esta vida já que, através do materialismo pregado por Marx e Engels, extinguia-se neste reles mundo a existência de cada um. Portanto, nada dessas baboseiras de uma outra vida podiam interferir com a verve revolucionária. A religião é o ópio do povo, pregara o mestre Karl Marx, e assim, era preciso construir o paraíso aqui mesmo. Para isto contava-se com uma legião de anjos configurados como proletariado.
A esquerda trazia um apelo irresistível para a juventude dourada, que se aboletava nas universidades, advinda das classes privilegiadas que podiam estudar, e que mais tarde galgariam os cargos de relevo na sociedade. Com convicção inabalável e alegria carnavalesca, cantava-se: Formamos a jovem guarda do proletariado. Ao mesmo tempo, de tudo se fazia para não parecer com os detestáveis burgueses. Como descrito no livro de Ralf Dahrendorf, Sociedade e Liberdade, havia um padrão de comportamento para superar a própria classe de origem. Assim, se usar gravata era burguês, logo não se podia nunca usar gravata. E se ter uma vida matrimonial harmoniosa era burguês, o negócio era praticar o amor livre. Possuir propriedade, então, era o máximo de ser burguês, e deste modo, os abastados da esquerda teorizavam com fervor sobre o fim da propriedade, sempre restando a dúvida se falavam a respeito de suas propriedades ou das de outros burgueses.
E tanto a esquerda fez e provocou, que o dia 30 de março de 1964 foi o último que o vacilante presidente João Goulart (detestado tanto pela esquerda que o acusava de ser de direita, quanto pela direita que o acusava de ser de esquerda), discursou pela última vez numa reunião de sargentos.
No dia seguinte, as tropas começaram a se movimentar sob o comando do general Mourão Filho. De Minas Gerais se deslocaram para o Rio de Janeiro. O que houve depois foi o apoio de São Paulo, depois do Rio e a confraternização do I e do II Exércitos. Estava consumada a vitória militar sem sequer a necessidade de luta.
Naquele momento, a esquerda se pulverizou. A greve geral convocada pelo CGT para o dia 30 fracassara, os estudantes estavam atônitos e, no Rio de Janeiro, ouvia-se com curiosidade, pelo rádio, os apelos desesperados do ministro da Justiça, Abelardo Jurema. Ele pedia ao povo que resistisse. Mas o povo dava a impressão de estar novamente assistindo bestializado a uma parada militar como fez na proclamação da República.
Mesmo assim, até 1989 ainda se podia distinguir o discurso da direita do discurso da esquerda. Daí em diante, com a queda do Muro de Berlim e o fim do bloco soviético, os parâmetros se perderam. Desnorteada, a esquerda fala agora em democracia (produto político eminentemente burguês) se diz cristã (aderiu, portanto ao ópio do povo), aceita as benesses do livre mercado (coisa do liberalismo) e generaliza todos seus perplexos adeptos sob o rótulo de socialistas, sem distinguir sociais-democratas dos antigos comunistas (afinal todos os partidos comunistas trataram rapidamente de mudar de nome).
Na América Latina, como de resto em todo o mundo, as ideologias fenecem, e candidatos ou governantes antes denominados de esquerda, não conseguem fugir do processo histórico, político e econômico trazido pelas privatizações, pela abertura da economia e pela redução do papel do Estado.
Deste modo, a amálgama entre esquerda e direita é quase perfeita. No Brasil, o exemplo mais eloquente disto apareceu no encontro da maior figura representativa da direita, o senador Antônio Carlos Magalhães, do Partido da Frente Liberal (PFL), com o esquerdista Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT). De maneiras semelhantes e impróprias, eles discursaram e advogaram programas inócuos para acabar com a pobreza.
O problema, aliás, que existe no PT, além da perplexidade diante do fim do socialismo, é sua indefinição interna. Suas várias alas advogam teses contraditórias e de amplo espectro ideológico. Isto fica evidente quando o deputado José Genoino declara ter deixado o socialismo e argumenta como um parlamentar do PFL, enquanto petistas que fazem o gênero esquerda burra defendem teses anacrônicas referentes ao fechamento da economia, à anulação das privatizações e ao intervencionismo estatal.
Aliás, o PT, em recente Congresso, não conseguiu definir o que seria para si mesmo o socialismo, e muito menos apontou diretrizes para solução dos problemas brasileiros, ficando a discutir durante vários dias se devia ou não adotar o slogan golpista de Leonel Brizola, fora FHC.
No mais, como previu Kaufman Purcell, do Conselho para as Américas, citado pelo jornalista Eduardo Poter: futuramente, na América Latina a diferença entre esquerda e direita será equivalente à que ocorre entre democratas e republicanos nos Estados Unidos. Os democratas são mais favoráveis à intervenção do Estado e os republicanos querem um Estado menor. Mas a diferença se reduz à quantidade de impostos a pagar. Ou seja, nenhuma questão de vida ou de morte. Será esta a tal de terceira via?





