Em fevereiro, o programa Sentinela, da Prefeitura de Londrina, completou um ano de atividades. O projeto foi criado com o objetivo de prestar assistência a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, e às suas famílias. Nos seus primeiros doze meses, o Sentinela atendeu 148 jovens. O projeto contempla vítimas entre 0 e 18 anos, mas até o momento não foram registrados casos de abuso contra crianças com idade inferior a dois anos.
Outros 67 jovens ainda estão sendo submetidos a atendimento, que inclui assistência psicossocial, visitas domiciliares e, havendo necessidade, encaminhamento das famílias atendidas para o recebimento de benefícios da administração municipal.
''Todos os casos são repassados pelo Conselho Tutelar. E o trabalho é feito de forma integrada com outras instâncias, como o Espaço Vida, que atende jovens usuários de drogas, e a Vara da Infância e Juventude'', explica Sílvia Vicentin, psicóloga que trabalha no programa. O Sentinela é tocado por uma equipe de sete funcionários. Como lida com uma questão delicada, o projeto interfere apenas até onde é possível.
''A denúncia do abuso sexual continua sendo um grande tabu. Prova disso é que atendemos apenas cerca de 150 vítimas numa cidade de quase 500 mil habitantes. É óbvio que muito mais jovens estão sendo submetidos a abusos em Londrina'', afirma a psicóloga.
Sílvia conta que a grande maioria das crianças e adolescentes atendidos pelo Sentinela é oriunda de bairros carentes. Este fenômeno pode ser explicado por dois motivos: primeiramente, o programa é público, e famílias com melhores condições de vida preferem recorrer a atendimento particular. Segundo, moradores de regiões mais pobres não têm tantos pudores em expôr uma situação de abuso sexual dentro da própria casa.
A psicóloga arrisca uma terceira explicação: ''Em bairros carentes, as casas são mais próximas, as pessoas têm mais contato, conversam mais. Acabam sabendo mais sobre as famílias dos vizinhos. Por isso, podem ter mais facilidade para saber de casos que propiciem denúncias. As classes média e alta costumam ser mais reservadas.''
Dos jovens atendidos pelo Sentinela, meninas entre sete e 14 anos formam o grupo majoritário de vítimas, constituindo 45% dos atendimentos. Meninos vem a seguir, com 33%, meninas de 0 a 6 anos são 12% e meninas entre 15 e 18 anos fecham a conta, com 10%. Dado alarmante: dos 148 casos atendidos no primeiro ano do programa, em apenas três o agressor era desconhecido. Na imensa maioria dos casos, o abuso é praticado por alguém familiar à vítima.
Segundo as estatísticas do Sentinela, o criminoso adulto, em 30% das ocorrências, é alguém que não faz parte da família, mas é reconhecido como de confiança. Como, por exemplo, vizinhos, conhecidos de escola, amigos que frequentam a casa. O padrasto vem a seguir, respondendo por 22% dos abusos, e em terceiro o próprio pai, com 19%. A porcentagem restante é constituída por outros parentes da família.
''O que acontece é que a proximidade, a intimidade entre agressor e vítima, evidente numa relação entre uma criança e alguém de confiança da família, favorece a chantagem e a ameaça. O agressor diz que vai matar a mãe caso a criança conte o que está acontecendo. O pai comete um abuso e diz que é um carinho, e a vítima acredita, porque é alguém conhecido que está dizendo'', explica Sílvia.
As sequelas, claro, ficam por toda a vida. Além dos diferentes sintomas que já indicam desajustes comportamentais (veja quadro), o abuso sexual influi em patamares profundos, como a auto-estima e até mesmo o senso de ética da vítima. ''A menina que é violentada perde estágios importantes no processo que vai torná-la mulher, como a liberdade de escolher com quem será a sua primeira vez, a quem ela vai entregar seu corpo. Isso é algo que fere muito a auto-estima. O menino teme o que vão pensar dele. Além disso, como o abuso é praticado por alguém em quem o jovem confiava, ele não sabe mais no que deve acreditar. Fica com o seu senso de moral, de respeito, comprometido'', explica a psicóloga.
Sílvia acredita que, a partir de seu segundo ano, o Sentinela terá o desafio de se tornar mais conhecido. ''Como eu disse, certamente existe uma diferença grande entre o número de abusos praticados em Londrina e os dados que chegam a nossas mãos. É preciso estimular a prevenção, de forma que pais e professores tenham a capacidade de perceber e denunciar o crime o quanto antes'', acredita. É uma forma de ganhar tempo antes que o abuso sexual produza cicatrizes impossíveis de apagar.

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