No final de abril, a denúncia de abuso sexual contra o ex-técnico da seleção brasileira masculina de ginástica artística Fernando de Carvalho Lopes chocou o País. Pelo menos 40 atletas e ex-atletas disseram que foram vítimas ou admitiram saber dos casos, investigados pela polícia e pelo Ministério Público Estadual de São Paulo há pelo menos dois anos.

A primeira denúncia foi feita por um garoto de 13 anos e outros meninos, todos menores de idade na época em que os abusos teriam sido cometidos, relataram ter passado pela mesma situação quando eram treinados por Lopes.

Mas detectar um caso de abuso sexual, especialmente contra crianças, não é tão simples. As vítimas podem não ter o discernimento necessário para identificar o crime e, por isso, são os pais ou responsáveis que devem ficar atentos aos sinais, que nem sempre são imediatos. Quanto à prevenção, os cuidados devem começar ainda na primeira infância.

Psicóloga clínica, doutora em ciências da saúde, especialista em EMDR (sigla em inglês para Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares) e presidente da Associação Brasileira de EMDR, Ana Lúcia Gomes Castello orienta os pais a ensinarem seus filhos desde muito pequenos a preservarem seus corpos e a se defenderem de possíveis abusos.

Quando o crime já aconteceu, o tratamento é fundamental para ajudar a vítima a superar os traumas e poder prosseguir com a vida. "Não é verdade que trauma não se trata", afirma Castello. "Se não trata, passa a vida inteira sofrendo", alerta.

Como os pais ou responsáveis podem identificar um caso de abuso?

Muitas vezes o abusador é uma pessoa da família, é um adulto que tinha que proteger e, ao invés disso, se aproveita da criança. Os abusadores, normalmente, têm história de abuso e são pessoas que muitas vezes ameaçam a criança ou o adolescente, dizendo que vão matar o pai ou a mãe, para evitar a denúncia contra ele. Por isso muitas vezes a criança não denuncia. É muito difícil, inicialmente, os pais detectarem o abuso, mas existem vários sintomas que são característicos. Primeiro, o isolamento. A criança faz um embotamento afetivo, como se voltasse para dentro dela, perde um pouco a vontade de viver com alegria. Fica um pouco mais triste, às vezes deprime um pouco, fica medrosa, fica hiperapegada, só quer ficar junto dos pais ou só dentro do quarto. Podem existir distúrbios do sono, como pesadelos ou insônia. Quando um pai ou uma mãe observa que a criança começa a sair do eixo emocional do dia a dia e começa a apresentar esses sintomas, é porque ela tem alguma dificuldade. Muitas vezes os pais perguntam e a criança não fala. É muito bom procurar um especialista.

Eu já tive vários casos de crianças que apresentavam esses sintomas e que os médicos da clínica onde eu trabalho evidenciaram para os pais que essa criança poderia estar vivendo algum tipo de situação difícil e os pais achavam que era bullying na escola etc., mas era abuso sexual, algumas vezes dentro da família, inclusive. É importante os pais estarem atentos. É importante saber com quem o filho está, onde está, o que está fazendo.

Mudanças de comportamento nem sempre são sintomas de abuso. Como diferenciar?

Sou terapeuta há 32 anos, estudei no mestrado e no doutorado o papel de pai e mãe, eu sei os limites que os pais têm em relação ao acesso aos filhos. A gente não pode querer que um pai, porque a criança está apresentando esses sintomas que eu acabei de falar, identifique o abuso. Mas a partir do momento em que o filho começa a apresentar uma mudança de comportamento, é importante investigar o que está acontecendo.

Deixar uma criança circular sozinha pelas ruas não é o mais adequado, mas muitos pais hoje não têm outra opção. Como ajudar uma criança para que ela tenha condições de se defender?

É possível fazer um trabalho de prevenção com uma criança a partir dos dois, três anos de idade. Eu faço um trabalho de psicoeducação com meus pacientes pequenos e converso com os pais sobre isso. Tem que dizer que ele é pequeno, que é importante não deixar ninguém mexer na sua cueca, na sua calcinha, nos seus órgãos genitais, os pais devem falar. Quando vai tomar banho, explicar para a criança que a mamãe está limpando, mas se alguém for mexer nela, avisar para a mamãe e para o papai.

Quando você abre o espaço para falar sobre isso é uma forma de saber o que está acontecendo com seu filho. Tem uma coisa muito séria em relação ao abuso. Quando uma criança é manipulada genitalmente, ela sente prazer. E muitas vezes a criança procura o abusador e ela nem sabe que aquilo é errado. Por isso é importante a psicoeducação com a criança desde pequena. Vai preparando, dizendo que não existe brincadeira de mexer na sua vagina e no seu pênis porque não se brinca com isso. Brinca-se com brinquedo. Quando você alerta a criança para isso, ela fica mais esperta.

E com as crianças maiores e os adolescentes?

As crianças maiores, de nove, dez, 11 anos, você já pode falar de uma maneira mais adulta. Falar em pênis, em vagina e dizer que essas brincadeiras de jogos sexuais não são normais. A gente sabe que entre crianças da mesma idade acontece de uma mostrar o órgão genital para a outra. É uma curiosidade e isso existe, não é uma coisa errada, mas eu oriento os pais a não estimularem. Também não oriento os pais a tomarem banho com as crianças. Não existe necessidade da exposição porque a criança fica curiosa, quer pegar e isso não é uma coisa saudável para a criança. Eu sou uma psicóloga extremamente moderna, mas eu vejo o lado coerente das coisas.

Fui atleta profissional durante 25 anos e meus pais sempre me orientaram a não ir em quarto de técnico, não sair com assistente de técnico, nunca tive esse problema enquanto eu era atleta, mas lembro que tinha muito cuidado em relação a isso. Não dava chance. Eu já tive caso de abuso de criança com professores de natação, de futebol, crianças pequenas, sete, oito anos de idade. Por isso é muito importante os pais acompanharem, sim, irem ao treino, irem ao vestiário quando a criança for tomar banho. Com sete, oito anos, não pode ficar largado.

Quais os prejuízos que o abuso pode acarretar para a vida da criança ainda na infância e depois, na vida adulta?

Abuso sexual normalmente é traumático. Pode gerar crenças negativas sobre elas mesmas e sobre o mundo. Tenho casos de adultos novos, 21, 22 anos, que a vida paralisou depois do abuso sexual. Pode afetar diretamente a cognição da criança, a forma como ela aprende, como ela se desenvolve na escola, pode afetar as relações sociais, os relacionamentos sexuais futuramente. Abuso sexual pode gerar um dano tão importante no cérebro do ser humano que a pessoa pode realmente perder o eixo. Eu tenho um caso de um rapaz que desenvolveu um problema psiquiátrico por causa de um abuso sexual que ele sofreu de dois amigos. Ele tinha 11 anos e os amigos tinham 16. Esse moço passou uma vida inteira sem conseguir fazer nada. Num determinado momento da vida, desenvolveu um transtorno psiquiátrico. Tinha crises quase diárias.

A gravidade da consequência do abuso tem mais a ver com a frequência em que o abuso ocorre ou com a sua natureza?

As duas coisas, segundo a minha experiência clínica. Eu tenho o caso de uma menina que foi abusada dos 11 aos 16 anos que está muito traumatizada e que o abuso era manipulatório, e tenho uma menina que foi abusada poucas vezes, mas foi de uma maneira muito violenta e o trauma também é muito grande. As duas coisas são semelhantes e a gente precisa dar um crédito de que tem que ser feito o tratamento. Se não trata, passa a vida inteira sofrendo, isso eu te asseguro. Já atendi mulheres adultas que tinham problemas de se relacionar com o marido no casamento por causa de abuso sexual.

Como é o tratamento?

Eu trabalho com a técnica EMDR, que é uma abordagem integrativa, terapêutica, desenvolvida pela psicóloga Francine Shapiro nos Estados Unidos, na década de 1980, e o EMDR tem como premissa básica a estimulação bilateral do cérebro. A gente tem um processamento adaptativo de informação que recolhe as memórias. Quando a gente sofre um trauma, a gente desloca as memórias desse processamento adaptativo de informação. E é por isso que quando a pessoa se depara com situações parecidas com aquela que ela viveu, ela ativa os pilares da memória, que são as imagens do que ela viveu, as crenças negativas do que ela viveu, as emoções e as sensações corporais. Na hora que eu uso o protocolo de oito fases de EMDR, eu levanto esses pilares da memória traumática de uma fase X e na hora de dessensibilizar eu faço o reprocessamento através dos movimentos oculares ou dos movimentos táteis ou auditivos.

Eu proporciono para a pessoa uma possibilidade de ela ir reprocessando aquilo que ela viveu. Muitas vezes ela abre arquivos de memória. Já tive casos de crianças que foram abusadas, que se lembravam de uma pessoa que tinha abusado dela, e na hora que eu fiz o trabalho, outras memórias vieram, de outros abusos. É como se o evento traumático bloqueasse a comunicação entre os hemisférios cerebrais e nesse momento que esse bloqueio existe, a pessoa fica paralisada naquilo. O abuso sexual é uma coisa que, às vezes, a vítima passa uma vida inteira sofrendo e não tem coragem de contar.

Todo caso é passível de tratamento?

O EMDR hoje é considerado pela Organização Mundial da Saúde, pela ONU (Organização das Nações Unidas) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria como um tratamento classe A para traumas. É a abordagem que se usa para tratar veteranos de guerra nos Estados Unidos e para tratar pessoas que passam por catástrofes. Desde que o trauma seja reprocessado em tratamento psicológico, a pessoa readquire a vontade de viver, readquire crenças positivas sobre ela. Ninguém esquece o trauma, isso não existe. A pessoa pode bloquear o trauma, mas ele está lá e muitas vezes incomoda.

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