ABUSO INFANTIL - Denúncias de violência sexual doméstica aumentam no País
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sábado, 10 de julho de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
No mês passado, veio à tona uma notícia que chocou o País. Um lavrador, de 54 anos, foi preso na cidade de Pinheiro (MA) acusado de abusar sexualmente da filha, hoje com 28 anos, com quem teve sete filhos. A situação, considerada absurda por muitas pessoas, é mais comum do que se pensa. Diariamente, no Brasil, crianças e adolescentes sofrem violência sexual dentro da própria casa. Em Londrina, mais de 500 casos estão em atendimento pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas III).
Em entrevista à FOLHA, o psicólogo Eugênio Canesin Dal Molin, responsável pelo atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência no Creas III e no Centro de Estudos e Atendimentos Relativos ao Abuso Sexual (Cearas), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o abuso sexual por si só não é indicativo de doença e que toda criança violentada deve ser submetida a tratamento psicológico.
O número de casos realmente está aumentando ou as pessoas estão tendo mais coragem de denunciar?
O número de casos pode ter aumentado, ao mesmo tempo em que a sociedade passou a dar mais atenção a tais eventos. O abuso sexual de crianças não é um fenômeno atual e gera na imensa maioria dos casos uma situação de segredo que é mantida entre pai-filha, mas também, muitas vezes, entre pai-filha-mãe. Mas a atenção da sociedade, a divulgação do problema e a existência de centros de atendimento dificultam o segredo.
Em Londrina, existem muitas crianças e adolescentes que sofrem ou já sofreram com esse tipo de violência?
Sim. O número de denúncias tem aumentado ano a ano conforme a sociedade tem se sensibilizado sobre o tema e as próprias famílias onde houve o abuso têm compreendido que o segredo está longe de ser a melhor alternativa. As denúncias de abuso subiram de 124 em 2002, ano da implementação do serviço de atendimento, para mais de 200 por ano a partir de 2006. Muitos abusos, porém, permanecem ainda em segredo.
O que explica a ocorrência de casos de violência sexual dentro da família?
Normalmente o que se observa é um conjunto de fatores, mas existe uma confusão, bastante elementar e muito presente na fala dos adultos abusadores, que diz respeito a como o adulto compreende as tentativas de sedução da criança. A criança tenta seduzir o adulto, como vemos em crianças pequenas que dizem que querem namorar ou dormir com os pais. Essa sedução está a milhas de distância de significar que a criança gostaria de ter relações sexuais com o genitor, mas o abusador confunde essa busca por ternura.
O homem que abusa da filha ou do filho pode ser considerado doente?
O abuso sexual por si só não é indicativo de doença. Basta observar a variedade dos tipos de abuso, as diferentes frequências e o contexto social em que acontecem e a reação do abusador após o ato. Um pai que toca eroticamente em sua filha uma única vez, arrepende-se profundamente do que fez e nunca volta a repetir o ato. Isso não significa que a criança vai sofrer menos, mas indica que o pai tem capacidade de sentir culpa e de conter seu impulso sexual. Para o profissional que atende esses tipos de caso, talvez seja mais interessante tentar entender, e ajudar o paciente a entender os caminhos por onde passa essa sexualidade.
Como os parentes podem identificar suspeitas? E como agir uma vez que os familiares podem ter medo de denunciar o suposto abusador porque, por exemplo, o abusador corre o risco de ser linchado?
O abuso sexual não apresenta um rol de sintomas exclusivos pelos quais pode ser identificado. Exames físicos podem apontar sinais de alguns tipos mais agressivos de abuso. É importante, de maneira geral, que a criança tenha alguém na família em quem ela confie. Já a denúncia do adulto deve ser feita a algum órgão responsável, para evitar julgamentos primários.
A qual tipo de tratamento deve ser submetida a mulher que foi violentada pelo pai ou por algum familiar?
A mulher adulta que foi abusada quando criança deve, se quiser e perceber que a experiência lhe causa sofrimento, buscar psicoterapia e, caso seja necessário, atendimento médico. Já no caso de crianças, a psicoterapia é recomendada por diversos motivos. Talvez não seja o caso de superar, mas de organizar melhor essa experiência vivida.
Pagar pelos seus atos na Justiça é o suficiente para que o agressor não cometa mais crimes sexuais ou ele deve ser obrigatoriamente encaminhado para tratamento?
Em vários países, o tratamento psicoterápico de adultos que abusaram de crianças é feito após a condenação judicial. O tratamento desse tipo de caso começa com o fim da negação do abuso. A punição judicial não é suficiente para que o paciente que abusou possa exercer sua sexualidade de uma maneira mais saudável e um dos motivos do tratamento é ajudar nisso.


