Abstinência - Termo de castidade gera polêmica
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sábado, 25 de outubro de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Ações pró-abstinência sexual não são novidade. Nos EUA, o governo Bush tentou impor a castidade entre os jovens a pretexto de reduzir a incidência de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), especialmente a Aids. Não deu certo. No Brasil, maior país católico do mundo, não é de se estranhar que a idéia seja propalada com frequência.
Em Londrina, o assunto voltou à baila de maneira radical: virou compromisso de candidatos às vésperas do segundo turno das eleições. Os dois prefeituráveis assinaram um termo apresentado pela Comissão de Defesa da Vida da Arquidiocese de Londrina com o compromisso de elaborar ações para divulgar a importância da castidade como meio de prevenção à gravidez precoce, transmissão de doenças e banalização da sexualidade. Um membro da comissão citou que a propaganda de camisinha seria um ''incentivo ao sexo precoce''.
O fato provocou indignação em Edson Facundo, o ''Tiba'', vice-presidente do Núcleo de Redução de Danos - uma das principais ONGs que atuam na prevenção de DST/Aids em Londrina. Ele sustenta que o compromisso, se posto em prática pela próxima administração, será um retrocesso no trabalho de entidades como a que ele representa.
A castidade como meio de prevenção à gravidez e doenças é defendida há tempos pela Igreja Católica. É uma via aceitável?
Na minha opinião, a Igreja está errada. É só ver como a campanha ''Fique Sabendo'' (lançada no mês passado, em Londrina, para incentivar a realização de exames de Aids) está surpreendendo. Quanto mais exames se faz, mais pessoas infectadas aparecem. As pessoas transam, com ou sem preservativo.
Um dos argumentos sustentados é que, ao distribuir preservativos aos jovens, está se incentivando e banalizando a prática sexual. Até que ponto isso é verdadeiro?
Não tem nada a ver. A questão é que hoje a juventude não tem um ídolo, um Deus, um objetivo, ou aquela idéia antiga de se guardar para o casamento. A moçada só quer transar, usar drogas, festar, curtir. Nem pensa em usar preservativo, e este sim é o problema.
O que levou os candidatos a prefeito a assinarem o documento de defesa da castidade?
Em época de campanha, eles assinam qualquer papel. Talvez nem concordem, mas podem garantir votos com isso porque Londrina é uma cidade conservadora, que joga a podridão debaixo do tapete. Não adianta você falar que vai colocar uma política de castidade, se as pessoas vão praticar sexo por fora. E muita gente proíbe, mas faz. É como quando a gente vai montar um projeto de redução de danos num lugar e eles dizem ''aqui não tem usuário de drogas''. Aí você vê que as pessoas saem do serviço e vão tomar cachaça, fumar um baseado, usar crack no fundo do quintal.
Esse documento é um retrocesso para o trabalho das ONGs de combate à Aids?
Sim, porque mesmo sem campanha anticastidade nós não conseguimos garantir que as pessoas usem preservativos. Ficamos frustrados quando vemos uma pessoa chegar grávida, ou soropositivo, mesmo sabendo que tem que usar proteção. Imagine se disserem para não usar.
E adianta dizer a um jovem para se privar de relações sexuais?
Não adianta. Falar ''não use droga'', ''não faça sexo'', funciona ao contrário. O negócio deles é 'rebeldiar'. Se um desses candidatos falar em castidade, o jovem vai perguntar ''quem é esse cara, na ordem do dia, para falar que eu não posso transar?'' Eles vão bater de frente. Nem nos EUA essa história pegou, porque era uma imposição.
Você gostaria que os prefeituráveis viessem conhecer o trabalho da ONG?
No primeiro turno nós convidamos todos para a reunião do Conselho Municipal Contra as Drogas (Comad), mas eles não apareceram. Disseram que não tinham agenda.
Se o documento aos candidatos partisse da ONG, como seria?
Pediria mais financiamento para o trabalho. Faz quatro anos que Londrina não tem campanhas mais efetivas de prevenção de DST e Aids. Existe um plano de ações e metas para isso, mas não sai do papel.
Os candidatos assinaram o documento da Arquidiocese e um deles será o futuro prefeito de Londrina. Isso te preocupa?
Claro que me preocupa. Daqui a quatro anos, quando ele terminar o mandato, como vai estar o índice de HIV, DST/Aids e gravidez indesejável na cidade?


