Abrir os olhos para o Noroeste
O Paraná é considerado um dos Estados privilegiados da Nação. Paralelamente à condição de importante e tradicional produtor de alimentos, ele se tornou nos últimos anos um respeitável centro industrial, atraindo muitos investimentos. Os paranaenses têm boas razões para orgulhar-se desta terra: as cidades apresentam excelente qualidade de vida, as estruturas de serviços e comunicação encontram-se em níveis bastante satisfatórios e não se reproduz aqui o quadro de violência já tão comum em outros lugares do País.
No campo, mesmo com os conflitos provocados pelas ocupações arbitrárias por parte do Movimento dos Sem Terra (MST), podemos dizer que, no geral, a atividade agropecuária encontra-se em processo de modernização, adequando-se aos desafios dos novos tempos.
Garantindo suporte e amparo a este avanço, contamos no Estado com importantes instituições de pesquisa e difusão tecnológica, além de amplas estruturas de recebimento e apoio à produção oferecidas principalmente pelo sistema cooperativista. Ao longo dos últimos anos, contudo, milhares de produtores e suas famílias acabaram deixando o Paraná, atraídos por oportunidades em várias outras regiões.
Buscando ampliar seus negócios ou simplesmente garantir meios para que seus filhos continuem na atividade rural, muitos migraram para Estados como Mato Grosso, Tocantins, Bahia e mesmo Maranhão, desbravando novas fronteiras agrícolas à custa de grandes sacrifícios e incertezas.
Quem convive com os agricultores conhece a inquietude que lhes é peculiar. Donos, muitas vezes, de pequenas áreas de terras, sabem que precisam fugir à essa limitação como forma de manter-se na atividade e oferecer perspectivas de futuro às suas famílias.
Daí que, ao voltar os olhos mais detidamente para a Região Noroeste do Paraná, enxergamos um horizonte novo e com enormes oportunidades para quem está em busca de uma nova fronteira agrícola. Com a vantagem de, justamente, estar bastante próximo de todo o conforto e comodidade oferecidos por este Estado de características e recursos tão especiais.
No Noroeste, há exatamente 3,2 milhões de hectares ocupados em sua grande parte por pastagens de baixo aproveitamento econômico. Para se ter idéia da dimensão dessa área, basta dizer que o Estado, maior produtor nacional de soja, cultiva cerca de 2,8 milhões de hectares com essa oleaginosa.
Nesses 3,2 milhões de hectares há de tudo um pouco, principalmente pastos cujo irrisório nível de ocupação torna a atividade pecuária absolutamente inviável. Há também regiões onde o solo é tão degradado que a impressão que se tem é a de um verdadeiro deserto em formação, desenhando um cenário aparentemente irremediável de empobrecimento e desolação, o que é chocante e até certo ponto inacreditável para a realidade paranaense, forjada com tanta pujança e bravura.
Utilizando as palavras do prefeito de Umuarama, Fernando Scanavacca, estamos próximos de ter no Noroeste do Paraná uma típica paisagem nordestina, com todas as suas agruras e mazelas, caso nada seja feito.
A reação a esta triste situação começou justamente por Umuarama, onde se demonstrou, em meados da última década, ser possível empregar a tecnologia agrícola disponível em programas de reforma de pastos degradados. O que parecia impensável aconteceu: a região do arenito demonstrou aptidão para a exploração de uma agricultura moderna, a considerar pelos vistosos níveis de produtividade obtidos.
Na safra 1999/2000, colhida no início deste ano, a produção agrícola no arenito já havia avançado para mais de 60 mil hectares e ninguém duvida que continue crescendo. Vantagens, afinal, não faltam: além dos bons resultados, comparáveis aos obtidos nas regiões de agricultura tradicional, o solo arenoso (cuja fragilidade fica protegida pelo sistema de plantio direto) é muito mais fácil de ser manejado que a chamada terra roxa, possibilitando, por exemplo, plantio imediatamente após uma chuva. O clima não demonstrou ser um fator limitante e, da mesma forma, cultivar no Noroeste não é coisa de aventureiro: hoje, ao contrário dos primeiros anos, existe um grande suporte de conhecimentos desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Federal do Paraná (UFPR), iniciativa privada e, especialmente, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), que serve de referência e encorajamento aos interessados.
Mais um detalhe interessante: ainda é possível encontrar terra barata no Noroeste, o que não acontece nas regiões de terra roxa. Enquanto nestas a cotação do alqueire paulista (2,42 hectares) corresponde em regra à média de 1 mil sacas de soja (cerca de R$ 16 mil) no arenito ainda se pode fazer bons negócios por um terço desse valor.
Quem conversa com os produtores que trocaram a terra roxa pelo arenito fica empolgado com a animação de todos eles. Muitos até abandonaram a idéia de abrir fazenda em lugares inóspitos em outros Estados para aproveitar a oportunidade surgida na nova fronteira paranaense. Eles prosperam aqui, felizes da vida.
E muito embora tenha se transformado em uma terra de oportunidades, com um potencial enorme a ser explorado, o Noroeste continua, apesar de todos os avanços verificados, padecendo de um problema crônico e de difícil remoção: a incredulidade de grande parte da sociedade e até mesmo de muitas lideranças que, mesmo diante da incontestável solução para reverter o processo de empobrecimento regional provocado principalmente pela pecuária incipiente, mantêm-se a distância, como se não tivessem uma responsabilidade a partilhar.
Invocamos justamente esta palavra responsabilidade para lembrar que o problema do Noroeste pertence a todos quantos possam contribuir, de alguma forma, para equacioná-lo. Todos queremos, afinal, uma economia fortalecida e, como efeito direto disso, uma população ocupando mais postos de trabalho e garantindo para si melhor qualidade de vida.
O potencial econômico oferecido pelo Noroeste é um grande presente para o qual o Paraná ainda não abriu os olhos. Ignorá-lo lembra estar deitado em berço esplêndido ou, pateticamente, cultivar miséria em celeiro de riquezas.
Precisamos, portanto, despertar e agir. Oportunidades, afinal de contas, não são para sempre.
- LUIZ LOURENÇO é presidente da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas de Maringá (Cocamar), sediada em Maringá
Excepcionalmente, Luiz Geraldo Mazza não publica sua coluna hoje.





