Tudo que fica banal deixa de ser percebido; é preciso alguém de fora mostrar. A violência urbana no Brasil foi crescendo tão sistematicamente ao longo do tempo, que os brasileiros foram se acostumando e hoje não a percebem como uma guerra. Foi preciso um suíço, funcionário das Nações Unidas, dizer o óbvio para que despertássemos para a realidade. Menos o governo, que preferiu dizer que a verdade não está acontecendo.
Não faz muito, as autoridades desmentiram aqueles que informavam do risco de uma crise energética. Pouco depois, o presidente foi obrigado a reconhecer que a crise o surpreendeu. A crise energética era então um fenômeno apontado por projeções estatísticas, e o presidente pode ter sido enganado por assessores e ministros. Mas não ver a gravidade das proporções da crise social brasileira e sua relação com a violência é inadmissível para qualquer dirigente no Brasil. O Brasil é um País em guerra civil.
Uma guerra civil do pior tipo, porque os revoltosos não têm propósitos nem liderança política. Não é uma guerra de classes organizadas em que uma delas reivindica alguma concessão da outra – seja para distribuir melhor o produto, seja para construir um projeto alternativo de sociedade. A atual violência tem o tamanho de guerra civil, mas os assaltantes querem apenas roubar, com assaltos ou sequestros, porque não se sentem parte do sistema, não estão dentro da sociedade que desejam reformar. Estão excluídos.
Em recente palestra na UnB, o professor André Urani lembrou que, no Brasil de hoje, apenas 1% das famílias tem renda mensal superior a R$ 2.193. Qualquer família que receba esse ou maior valor na soma dos rendimentos de todos os seus membros pertence a uma casta de apenas 1% da população. Qualquer família cujos membros recebam R$ 570 ou mais por mês pertence aos 10% mais ricos da população.
Entre o 1% e o resto há uma brecha maior do que na comparação da renda entre os Estados Unidos e o Brasil; e entre os 10% mais ricos e os 90% mais pobres há um corte muito mais grave do que uma desigualdade. Nós não temos classes, temos castas; não temos desigualdade, temos apartação.
Mas o governo atual, talvez por ver o Brasil pelos relatórios, parece achar que não precisamos abrir os olhos, que a situação não é tão grave – como diziam também os relatórios sobre o estado da crise energética. E que os esforços que estão sendo realizados são suficientes. O grande mérito do sr. Ziegler foi ter visto o Brasil com olhos desacostumados à nossa própria miséria. Porque, de tão acostumados a ela, nós já não a vemos.
E quando a vemos, culpamos apenas o governo que se nega a ver, quando a culpa é de todos nós. Primeiro, porque a maioria de nós o elegeu duas vezes. Segundo, porque somos culpados pela visão corporativa como a que observamos no Brasil. Apesar de nossa indignação e raiva em relação ao quadro social brasileiro, a maior parte de nós está querendo resolver esse problema sem ceder nada, sem abrir mão de nenhum privilégio. Quer aumentar o salário dos nossos operários de construção sem abrir mão de casas grandes que exigem muita mão-de-obra com baixos salários; quer aumentar o salário-mínimo, mas sem diminuir a diferença entre os maiores e os menores salários. E seria tão pouco o necessário para resolver o problema da exclusão no Brasil, que precisamos abrir menos os bolsos dos ricos do que os olhos dos dirigentes.
Para fazer nossa segunda abolição – garantir a todos o acesso aos bens e serviços sociais essenciais – seria preciso gastar com eficiência apenas 10% dos recursos do orçamento do setor público brasileiro, o que corresponde a apenas 3% da renda nacional. É uma parcela muito pequena de nossa renda que precisaria ser gasta, para nenhum funcionário das Nações Unidas escrever relatórios que nos envergonham por causa de nossa maldade com os pobres brasileiros. Até lá, devemos agradecer àqueles que abrem nossos olhos.
O Brasil dispõe de todos os recursos para, no prazo de 10 a 15 anos, ter todos os brasileiros em escolas com a maior qualidade, bem alimentados, com um eficiente sistema de saúde, um bom transporte público e todos com um endereço limpo – um lugar onde morar com água, esgoto e coleta de lixo. Já se sabe como fazer, os recursos estão disponíveis, o País sente a necessidade disso. Precisamos de uma liderança que abra nossos olhos para a realidade, indique caminhos para corrigir a vergonha atual e conduza o grande concerto nacional em direção a este projeto.
Mas, primeiro, é preciso abrir os olhos – talvez esta seja a maior dificuldade. E quando um estrangeiro vem nos ajudar, nós o chamamos de mentiroso. Já aconteceu isso na História, quando Maria Antonieta perguntou por que os pobres franceses não comiam bolo, já que reclamavam da falta de pão. Ela falou com toda sinceridade, porque não via a pobreza, e não havia consultores internacionais passando por lá para abrir os seus olhos. O resultado não foi bom para o pescoço dela.
Nas democracias, os governantes ‘‘perdem o pescoço’’ a cada quatro anos, mas o pescoço do povo continua, os jovens continuam, a História continua e a tragédia sempre chega um dia, quando os ex-presidentes já se foram.
CRISTÓVAM BUARQUE é professor da UnB e ex-governador do Distrito Federal

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