Um espetáculo que tem seu preço. Hoje começa o auge da farra, a excelência das falcatruas. O ano é o da Copa, o mês é o da Copa, mas é na semana da Copa que o anestésico é aplicado intensamente num corpo inerte, de reação bloqueada. Já deu para entender? O grito da torcida encobre qualquer ruído de ataque à inteligência nacional. O leitor pode perguntar: mas corrupção e armações não são recorrentes e praticadas independentemente de festas? Exato, mas nada como o povo dançando a quadrilha junina lá fora para a quadrilha real saquear mais livremente na cozinha, na sala ou nos quartos. O futebol, legítima alegria do povo, manifestação cultural, não tem culpa nem quer ser o ópio, mas o entorpecimento moral, que leva ao distanciamento da realidade, acontece sempre.

Para não falar do passado, quando até um interventor aparecia, meio desajeitado, de radinho ao ouvido (quem se lembra?), nas últimas semanas tivemos um jogo amistoso para assoprar feridas deixadas por um ditador no Zimbábue. E um presidente - muito discreto - prometendo cambalhotas na rampa do Palácio. Não duvide que ele possa estar treinando. Se o Brasil ganhar, certamente o fará, levando no peito o nome da sua candidata à Presidência. A Justiça Eleitoral fecha os olhos e aplaude.

Mas a Seleção representa o sentimento nacional. Estamos em guerra, em cada jogo uma batalha a ser comemorada ou chorada (isola na madeira). A nossa guerra não é contra a corrupção, as injustiças e as mentiras. O triunfo é golear a Argentina, por exemplo, ainda que ela nos aplique dribles espetaculares em outras relações mais importantes.

Dias atrás, uma leitora disse à esta FOLHA: Amo o futebol, mas odeio a expressão ''Pátria de chuteiras''. Pois é, mas a mídia, o agente do processo anestésico sobre o qual estamos falando, abusa dessas figurações. Certa vez, Othon Garcia, da Academia Brasileira de Filologia, comentou: ''A linguagem ideal seria aquela em que cada palavra designasse apenas uma coisa e correspondesse a um só conceito ou sentido. Como tal não ocorre, as palavras são, por natureza, enganosas''.

Para você leitor não perder de vista: palavras, na política como no futebol são enganosas. Vá devagar. Aprecie com moderação e senso crítico.

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