Em 1830, escreveu Simón Bolívar um dos maiores líderes latino-americanos resumindo sua experiência de governar: ‘‘comandei durante vinte anos, e não tirei deste lapso de tempo senão alguns resultados certos: 1. A América Latina é, para nós, irrevogável; 2. Aquele que trabalha para uma revolução labora no mar; 3. A única coisa a fazer na América Latina é imigrar; 4. Este país (a Grande Colômbia, partilhada sucessivamente entre a Colômbia, a Venezuela e o Equador) cairá infalivelmente nas mãos da população desenfreada para passar em seguida para a dominação de obscuros tiranetes de toda a cor e de toda a raça. 5. Entregues a todos os crimes e esgotados pelos nossos cruéis excessos, os europeus não procurarão sequer reconquistar-nos; 6. Se acontecer que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América Latina’’.
As duras palavras de Bolívar, escritas há 167 anos, diziam respeito à América Espanhola. Entretanto, se observarmos com cuidado a realidade latino-americana de hoje, na qual se inclui o Brasil, guardadas suas diferenças com relação aos demais vizinhos de língua espanhola, constataremos que o realismo político do Libertador perdura tal qual uma constante essência que agora, numa nova espiral do tempo, mantêm suas características.
Afirmo isso com relação ao nosso país quando leio nos jornais sobre a crescente politização dos movimentos reivindicatórios de policiais em vários Estados. E esta politização se dá na medida em que a CUT, o MST e os partidos de esquerda, aproveitando-se da situação calamitosa em que vivem os policiais, tratam de atraí-los para suas bandeiras, e transformar seus protestos em manifestações contra o governo.
Num oportunismo flagrante, as esquerdas, como num passe de mágica, já não vêem os policiais como seus agressores. Conforme o registrado no O Estado de S. Paulo, o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que teve o malar afundado por um soco de um policial, agora anseia por uma frente ampla que vai do deputado estadual Conte Lopes (PPB) - capitão da PM que se orgulha de ter matado dezenas de bandidos - à convergência Socialista. E José Rainha, com a petulância própria da impunidade, aposta que o movimento da corporação por melhores salários pode se estender ao Exército. ‘‘A não ser que eles continuem de barriga vazia’’, disse.
Se a menção de Rainha ao Exército pode parecer disparatada, ela leva a crer que o desejo de golpe acalentado pelas viúvas de Stalin está fortalecido. Se for preciso, que se tome o poder pela via revolucionária. Idealmente, com o apoio das Forças Armadas, ou parte delas, para que o êxito seja completo. Portanto, abre o olho, Brasil, porque os sintomas estão no ar. E eles não são nada bons.
Alguém poderá objetar que estou exagerando, e até rir do encadeamento do meu pensamento. Mas ‘‘vanguardas’’ como Rainha, Vicentinho, de várias alas do PT, etc., sabem de cor e salteado os tipos de ‘‘aceleradores’’ capazes de tornar possível uma revolução. Entre estes, pode-se citar: 1. Uma cisão profunda no seio da elite dominante, e a possibilidade da elite excluída recorrer à mobilização popular; 2. Acontecimentos que afetam a disciplina, a organização e a lealdade das Forças Armadas; 3. Provocações feitas às autoridades por grupos de conspiradores ou guerrilheiros.
Se no Brasil estes aceleradores estão esmaecidos, devemos lembrar que: 1. As elites de esquerda continuam inconformadas e querem mais poder, notadamente as do PT que perderam duas eleições seguidas para a presidência da República. 2. Se as Forças Armadas continuam cumprindo com suas obrigações de proteção e manutenção da ordem, as corporações policiais estão tumultuadas e se tornando fáceis presas da politização esquerdizante, à qual não falta o toque ‘‘beatificante’’ das CEBs.; 3. Quanto a provocações, estas tem sido sistematicamente feitas ao presidente da República e a alguns dos seus ministros, notadamente o da Reforma Agrária.
Mas será que vale a pena tentar reeditar uma ideologia que morreu de inanição em todo o mundo? Será que o fracasso de todas as revoluções, inclusive as havidas na América Latina, não basta para convencer nossas esquerdas de sua insensatez? Afinal, o que desejam nossos esquerdistas em nome da justiça social que eles pensam ser seu monopólio, mas que seus congêneres em outros lugares do mundo jamais praticaram? Querem criar finalmente um Sendero Luminoso brasileiro, esquecendo-se que no Peru o Sendero fez de suas vítimas privilegiadas camponeses indefesos? Querem reeditar aqui um movimento tipo zapatista sem a mística de Emiliano Zapata? Ou será que para imitar a ditadura de Fidel Castro querem nos obrigar a passar, aí sim, fome e necessidades para que a ‘‘vanguarda’’ vá ao paraíso do poder, como sempre fez em todas as revoluções? Abre o olho, Brasil. E lembre-se o presidente Fernando Henrique das palavras de Bolívar para que o saldo do seu governo não seja igual ao do Libertador. É preciso provar que agora somos governáveis.

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