Abraham Shapiro - Um perfil de Lula para 2004
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terça-feira, 06 de janeiro de 2004
Gaudêncio Torquato 
Demóstenes era gago, mas se tornou o maior orador grego, depois de treinar a voz, colocando seixos na boca e discursando diante das ondas do mar para desenvolver o volume de voz e aperfeiçoar a dicção. Uma vez, perguntaram a ele qual seria a principal virtude do orador. A resposta: ação. Surpreso, o interlocutor voltou a indagar: e depois? O grande tribuno não titubeou: ação.
Queria dizer que o discurso deveria conduzir os ouvintes à ação, não devendo ser um fim em si mesmo. Conta-se que quando Demóstenes falava, a multidão se punha em marcha, ao contrário da audiência estática, que se encantava, mas não reagia à fala culta de outro grande orador, o tribuno Cícero, célebre por ter enxotado de Roma o general Catilina com seu famoso discurso (quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Até quando abusarás, Catilina, de nossa paciência?).
Ao concluir o primeiro ano de governo, Lula passa a impressão de que, mesmo se libertando da língua presa, não domina a parte mais importante da lição de Demóstenes, a capacidade de gerar ação com a força da palavra. Sua expressão é a síntese de um governo escudado em metáforas e boas intenções. Os extensos discursos, incorporados à rotina de ambientes palacianos e palanques abertos, que deliciam platéias variadas, começam a enfeitar os espaços de banalização. Começa a cansar a liturgia de aplausos previsíveis.
O que a população mais deseja é aumentar a taxa do Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF), mesmo que, para tanto, seja necessário diminuir o tal superávit primário. Generaliza-se a impressão de que a dinheirama que se arrecada pode até conseguir loas do FMI e adjacências, elevando o prestígio brasileiro, mas acaba não se revertendo em bem estar para o povo.
À semelhança de Maomé, Lula levou o povo a acreditar que poderia atrair uma montanha, no cume da qual rezaria a favor de seus fiéis. Como ensina a história, o povo foi atrás de Maomé para ver o espetáculo da chegada da montanha. O profeta chamou por ela repetidas vezes, e nada. Não se dando por vencido, Maomé proclamou: se a montanha não vir à presença de Maomé, Maomé irá ao encontro da montanha. E assim fez.
Homens audazes são capazes de refazer o percurso. Líderes natos mudam prioridades, buscam alternativas, reconhecem erros, dão meia volta e fazem o necessário para realizar o que foi prometido. Ora, Lula é a encarnação de um Brasil melhor, mais justo, mais igual e solidário. Ocorre que ele tem investido no perfil de grande orador. Até parece candidato em plena campanha. Espera-se que o presidente Luiz Inácio, doravante, fale menos do Brasil virtual e pise mais no chão do Brasil real, visitando, por exemplo, hospitais ou tomando medidas enérgicas para extinguir o crescimento de filas. Correria o interiorzão do País, como faz nas campanhas eleitorais, para ver a cara e as carências do povo. Faria mutirões com os ministros, tomando providências, substituindo o verbo pela ação. Como Maomé, Lula deve ir ao encontro da montanha do crescimento.
GAUDÊNCIO TORQUATO(jornalista e professor titular da USP)


