Carmen Lúcia de Melo Barroso, diretora para o hemisfério ocidental da Federação Internacional de Planejamento da Família, entregou ontem ao governo brasileiro um estudo sobre o aborto no mundo. A publicação ''Morte e Negação: Abortamento Inseguro e Pobreza'' foi feita a pedido do sub-secretário de Estado para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, Gareth Thomas, para mostrar as tendências mundiais em relação ao aborto, tanto no que se refere à prática, quanto à legislação e à saúde pública. Segundo Carmen, há um onda de liberalização das leis para acabar com o aborto inseguro. ''Existe uma tendência nesse sentido, mas muitos países não entendem muito bem as razões ou pensam que estão isolados.'' A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o aborto inseguro é aquele realizado por pessoas sem as habilidades necessárias e em ambientes sem os padrões clínicos mínimos.

O que a pesquisa mostra?
Que as maiores vítimas do aborto inseguro são as mulheres pobres. Se morrem, os filhos vão ser mais pobres. Se têm complicações e vão para o hospital, ficam mais pobres. A pobreza é causa do aborto inseguro e este a agrava. A segunda tese da publicação é que a legislação e a prática de aborto têm pouco em comum. Se você é contra o aborto, e a maioria de nós somos - porque é melhor evitar a gravidez do que abortar -, então tem que dar educação sexual, acesso a anticoncepcional, camisinha. Proibir o aborto não adianta, porque continua sendo feito e de forma que penaliza as mulheres pobres.

O aborto é mesmo um problema de saúde pública, como disse o ministro da saúde do Brasil?
O ministro tem toda razão. O problema de saúde pública afeta a coletividade e exige uma resposta do poder público. O aborto é assim porque, primeiro, é muito comum. No Brasil, por exemplo, a média é de cada mulher fazer um aborto na vida, o que é muito alto. As estatísticas também mostram que, no Brasil, são mais de 200 mil internações por ano de mulheres que são atendidas pela rede pública para corrigir os problemas do aborto malfeito, incompleto. Por todos esses motivos é um problema de saúde pública sim.

Como discutir o problema saindo da questão religiosa?
Temos de respeitar a Igreja. Se ela acha que é crime, pregue aos seus fiéis que não o pratiquem. Agora, temos de respeitar também a opinião das outras pessoas. É uma questão de separação entre Estado e Igreja, que no Brasil só existe na teoria. Na prática, a Igreja continua exercendo muita influência sobre o governo. O que não deveria acontecer porque o governo tem obrigação de fazer leis para todo mundo.

Como deve ser feita a educação sexual?
Primeiro, é preciso dar informação às mulheres, saber quais são as formas de evitar filhos. A maioria dos brasileiros conhece alguns métodos, não todos. É necessário tornar disponíveis as informações e também os métodos contraceptivos.

Como escola e pais devem atuar na educação sexual dos jovens?
Todas as escolas, públicas e particulares, devem ter cursos de educação sexual. Aula de educação sexual é dar informações, sistematicamente, por meio de um professor acessível a quem o aluno possa fazer perguntas, e principalmente discutir relacionamento. Ela deve discutir ''O que é um relacionamento?''; ''Que direito eu tenho de dizer não?''; ''Tenho a segurança, a auto-confiança para decidir o que quero?''. Esse tipo de discussão é muito importante para os jovens, principalmente as meninas, porque ainda vivemos em uma sociedade machista. Ainda é o homem quem dita as regras, principalmente na área sexual. Então a educação sexual é para colocar o relacionamento em discussão, para preparar as pessoas para um relacionamento saudável, prazeroso e maduro.

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