Quanto vale a fantasia?

Por vezes é difícil entender o que de mais precioso nós, adultos, nos permitimos perder ao longo dos anos. A fantasia, talvez o principal componente do imaginário infantil, é o elo que nos separa de uma realidade para a qual ainda não estamos preparados. Ou no qual não merecemos estar conscientemente inseridos, por conta de um conjunto tão grande e diversificado de defeitos criados ou ampliados pelo ser humano (adulto).
Pois nesse mundo de fantasia existe de tudo. Muitos dos amigos - além dos que temos na escola, na vizinhança e entre os primos mais chegados - são imaginários. Esses estão ao nosso lado permanentemente, não traem, não agridem, não nos tiram intencionalmente valores ou energia. As plantas e os animais falam, a parede ganha vida e personagens quando nela jogamos alguns rabiscos.
Os personagens, aliás, formam uma legião capaz de passear com liberdade pelo dia-a-dia da mesma maneira como enche de vida os sonhos. E isso ao ponto de, por vezes, não sabermos onde foi que a fantasia entrou no sonho e onde o sonho pegou carona na fantasia. Ambos tomam a mesma proporção, as mesmas linhas. É tudo uma grande chance para brincar, a atividade mais preciosa que vemos desaparecer da nossa vida quando passamos a montar nosso mundo apenas em pilares mais ‘sólidos’, como a razão e a produção.
É dessa forma, brincando, que formamos o nosso mundo, com a nossa cara e o nosso jeito de olhar as coisas e as pessoas. Os amigos imaginários e os personagens são os parceiros na brincadeira. E devem ser vistos e preservados como tal pelos adultos. Querer diminuí-los é tirar das crianças um pedaço do mundo, exatamente aquele mundo que construímos e ajudamos a sedimentar. Nesse mundo - ou naquele, como preferem muitos adultos -, temos de Mônica e Cebolinha a Mickey e Tio Patinhas, de Branca de Neve a Pedro Malasarte e Saci Pererê.
Essa deve ser uma reflexão quando se analisa a iniciativa da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) em construir uma casa para um dos personagens mais importantes no imaginário das crianças, que é o Papai Noel. Uma figura nascida dentro do clero, que ao longo dos anos se transformou em sinônimo de alegria e presentes.
A questão colocada pelo jornalista Walmor Macarini, no artigo publicado na edição de ontem da Folha de Londrina, é oportuna, porque nos permite aprofundar um tema que recebe olhares mais críticos exatamente por ser uma idéia nova.
As Casas do Menino Jesus, como pede o jornalista, já existem e em um número felizmente farto. Essas casas são os nossos corações, de cristãos verdadeiros, que têm Cristo como o verdadeiro Senhor. Para Ele, todo lugar é devido e oferecido, como um gesto de resposta às tantas graças que recebemos todos os dias. Nossa casa, nossa família, nossa empresa e nossos relacionamentos. Tudo, enfim, é a Moradia do Menino Jesus. Se for diferente, estamos negligenciando o mandamento imposto aos cristãos, que é amar a Deus sobre tudo e sobre todos.
Temos também nossas igrejas, templos e outros espaços, onde, cada um a sua maneira, louvamos ao Criador e ao Seu Filho, o Menino que nos foi dado como bênção de luz e vida.
Construir uma casa para o Menino Jesus seria um contra-senso. Não há e jamais poderia haver qualquer sombra de competição ou comparação entre dois elementos tão diferentes. Um é a Verdade Suprema, perene e inquestionável; o outro, a fantasia, a brincadeira, o sonho.
Os presépios, representações artísticas e espirituais do momento do Nascimento de Jesus, são alvo de duas iniciativas da Acil em conjunto com o Museu Padre Carlos Weiss. No prédio do Museu estão sendo realizados, simultanemente, um concurso e uma mostra de presépios. Os trabalhos estão expostos desde esta quarta-feira. A preparação destas duas atividades começou junto com as primeiras reuniões da campanha Londrinatal, que este ano tem adesão ainda maior do que nos seus dois anos anteriores. A validade de festejar a figura do Bom Velhinho foi confirmada no último sábado, quando a Acil e seus parceiros promoveram a festa de abertura oficial do Natal de Londrina. A chegada do Papai Noel levou cerca de 70 mil pessoas ao Lago Igapó, o maior público já registrado naquele espaço privilegiado do povo londrinense. Eram pessoas de todas as classes sociais, de todas as idades, de várias cidades da região. Este último detalhe, aliás, é vital. As luzes que inundam Londrina este mês, também uma iniciativa da Acil com a campanha Londrinatal, e agora a Casa do Papai Noel trazem ao município visitantes de várias regiões. É o que chamamos de turismo de época, que no caso do Natal dá ao comércio um fôlego adicional. Mais do que isso, as luzes e a Casa dão a Londrina uma identidade própria, já que ela é a única cidade do Estado a juntar tantos atrativos e belezas.
A Casa do Papai Noel, para aqueles que talvez não tenham assimilado a idéia, é uma homenagem à imaginação infantil e um presente que, para muitas crianças, é mais importante do que um brinquedo ou uma bicicleta. A casa será guardada carinhosamente por elas na memória.
A certeza disso podemos ter e reafirmar todos os dias pela reação emocionada dos pequenos visitantes. Pela manhã, quando as crianças carentes são as ‘donas’ da casa às margens do Lago Igapó, o brilho da alegria enche os olhos daquelas que, muitas vezes, conhecem pela primeira vez o Papai Noel, a Mamãe Noel e a morada da família.
Tudo, é claro, com os abençoados olhos da fantasia, que felizmente muitos adultos ainda conservam.
Quem duvidar, que vá conferir!
- ABÍLIO MEDEIROS JÚNIOR é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina

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