Neste fim de semana, Cuba escolhe seu primeiro comandante desde meados do século passado, quando Fidel Castro assumiu o poder na ilha mais polêmica da América Latina. Com a renúncia do ''comandante'', analistas se dividem sobre as consequências para a política externa no continente. A seguir, a opinão do professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Sidnei Munhoz - especialista na política externa dos Estados Unidos e em estudos da política contemporânea:

Quais as consequências da renúncia de Fidel?
Sem a pretensão de fazer previsões, é importante observar que nesse último período, Fidel Castro e o grupo ligado a ele trataram de fazer um processo de transição para tentar garantir uma estabilidade em sua eventual ausência. Me parece que esse passo foi dado exatamente com o sentido de tentativa de manutenção do regime. Agora, é claro que a ausência de Fidel vai criar um cenário em que forças locais internas que se opõe ao regime possam ver uma brecha para conquistar mais espaço e tentar tensionar o regime. Esse tipo de força certamente vai ser estimulado, de um lado, pelo governo dos Estados Unidos, e por outro, pela mídia internacional conservadora, para gerar uma pressão pela chamada abertura de Cuba à democracia.

Quais as raízes dessa abertura?
Isso tem que ser relativizado. Vejo que houve avanços sociais significativos em diversas áreas em Cuba, mas, ao mesmo tempo, é um regime que criou estruturas que impediram o funcionamento de uma democracia plena. Agora, isso deve ser atribuído somente a Cuba. É importante resgatar a história. Quando a revolução eclode em Cuba, Fidel não era comunista e o projeto dele não era um projeto comunista. Ocorre que o tensionamento provocado pelos Estados Unidos e as diversas tentativas de invasão de Cuba vão acabar jogando Cuba nos braços da União Soviética. Com isso, o regime acaba se tornando policial e, em parte, ele ganhou estas características autoritárias porque Cuba teve que se fechar para se proteger.

E hoje, como se situam os EUA?
Com certeza, os Estados Unidos pressionarão muito Cuba (pela abertura). E pressionarão sem grandes mudanças, quer democratas quer republicanos vençam as próximas eleições. Os Estados Unidos tem uma política de longa duração que se mantém atualmente.

A saída de cena de Fidel pode deixar Cuba mais suscetível a mudanças?
Pode ficar mas, ao mesmo tempo, se ele continua vivo e como uma figura galvanizadora, permanece com uma grande base de apoio social. Por outro lado, se ele morrer, o regime provavelmente vai trabalhar com a figura do mártir que lutou o tempo todo e isso pode até fortalecer determinadas tendências.

Existem rachaduras internas no regime cubano?
Acho que não existe nada que seja homogêneo, com certeza há diferenças e há diferenças mesmo entre o Fidel e o Raul. Agora, todas as informações que temos relacionadas ao regime nos chegam de forma muito filtradas e esse é um dos grandes problemas para se analisar a situação cubana.

De que forma Cuba influenciou a política externa dos Estados Unidos para a América Latina?
Ao final da 2 Guerra Mundial, a preocupação dos Estados Unidos era a reconstrução da Europa. Para se ter uma idéia, só Berlim recebia muito mais dinheiro que a América Latina inteira. Mas, quando eclode o processo revolucionário em Cuba, a situação se modifica porque os Estados Unidos começam a ver o risco da rebelião no seu quintal e o comunismo também como ameaça na América Latina. A resposta a isso vai ser o apoio a forças conservadoras que culmina em golpes militares, nos anos 60 e 70, na Argentina, Brasil, no Uruguai, no Chile e outros países.

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