ABC, 20 anos (Editorial)
EditorialABC, 20 anos
Amanhã, os metalúrgicos do ABC paulista, ao lado de algumas das maiores lideranças trabalhistas do país, realizam ato público para comemorar o transcurso do vigésimo aniversário das primeiras greves ocorridas no período militar. Ditadura e greve, sabe-se, não combinam. E o Brasil mergulhou, em 1964, num regime totalitário que cerceou todas as liberdades, incluindo, naturalmente, as dos trabalhadores. Foi uma época extremamente difícil, em que se solapou a liberdade em nome de sua preservação. Hoje isto parece curioso, mas é um fato: as lideranças militares, apoiadas por forças políticas, lançaram o golpe contra o governo alegando que se tramava a derrubada da democracia, devido à esquerdização que estaria ocorrendo em nível federal. Assim, como tantas vezes ocorre, principalmente na História política latino-americana, a liberdade foi derrubada em seu próprio nome.
Procurando dar cunho democrático ao regime que se implantou no país, a ditadura tentou realizar uma difícil ginástica de convivência com os políticos. No primeiro ano, inclusive, os partidos políticos existentes foram mantidos e o calendário eleitoral preservado (tirando-se ao povo, apenas, o direito de eleger o seu Presidente). Mas como os resultados do pleito de 65 não foram totalmente do agrado do poder totalitário, os partidos foram extintos, criou-se um bipartidarismo do tipo camisa-de-força, com a ditadura tentando impor-se a ponto de dominar politicamente o país. Não deu muito certo, e o endurecimento implantado pelo Ato Institucional nº 5, em 1968, deixa claro que os brasileiros não estavam aceitando as imposições totalitárias.
Seis anos depois, em 1974, veio a grande reação eleitoral, com o partido da oposição consentida, MDB, ganhando nos mais importantes Estados da Federação. Era o começo de uma virada, que ainda carecia, porém, de uma maior demonstração de coragem. Esta eclodiu no ABC paulista, a maior região industrial do país, onde começaram a surgir as mobilizações em defesa dos direitos dos trabalhadores. Neste caso, também, a falta de sensibilidade do totalitarismo foi fortemente responsável pelo que veio a acontecer. Pois não se pode esquecer que uma das bases da ação econômica do governo totalitário era o arrocho salarial, verdadeira peça básica no chamado esforço contra a inflação.
Mas apesar da repressão, do medo, da situação insegura, os trabalhadores resolveram assumir a luta. Com o instrumento da greve, eles protagonizaram a virada irreversível que iria levar o país de volta à democracia. É inegável que foi necessária dose enorme de coragem por parte dos que assumiram a luta sindical, o verdadeiro renascimento da consciência do trabalhador em sua força e importância. A grande mobilização que ocorreu em 1978, no ABC, ampliou os caminhos, ao mesmo tempo em que fazia surgir nova e definitiva percepção sobre a necessidade de se retomar o processo pelo qual o povo viria a ser, de novo, dono de seu destino, sem amarras, sem tutores. Nesta fase, muitos operários foram presos e perseguidos, um deles acabou morto em confronto com as forças da repressão, helicópteros do Exército faziam vôos rasantes sobre o Estádio de Vila Euclides, que sediava as maiores concentrações, mas nada disso foi capaz de intimidar os trabalhadores e seu esforço por um novo país.
O ato que marcará amanhã a celebração do início, há 20 anos, da luta do trabalhador contra a opressão totalitária, será realizado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o que é até natural. Ali se iniciou a caminhada fundamental para a redemocratização, numa sequência à luta que se realizava na esfera política, com o voto de protesto dado contra o partido formado pela Revolução para defendê-la e dar-lhe cunho democrático. Com a coragem manifestada no ABC para o enfrentamento da violência totalitária, os brasileiros davam outra demonstração da vocação que iria conduzir o país à volta da democracia, processo inédito na história dos povos deste Continente.





