ABANDONO COMOVENTE
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2002
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
A notícia de um bebê abandonado tem o dom de comover as pessoas. É só a mídia divulgar o fato, como o caso recente da menina Leriel, de Cascavel, que surgem dezenas de interessados na adoção (leia matéria na página 18). Para as psicólogas Salete Galvão Coser e Ana Paula Cruz de Queiroz, que trabalham com adoção no Fórum de Londrina, a maioria dos interessados acaba desistindo da adoção depois dos ''quinze minutos de fama'' da criança.
O interesse na adoção, nestes casos, explicam as psicólogas, é momentâneo, motivado pela situação de extrema fragilidade da criança. ''As pessoas se sensibilizam com o total abandono, principalmente se é um bebê, e nessas situações afloram sentimentos maternais de proteção e cuidado. Outro atributo que mexe com as pessoas é a beleza, a Leriel é loira e branquinha'', explicou Ana Paula. ''O desejo é de suprir a necessidade daquela criança em específico, no momento do fato, é uma mobilização localizada'', disse Salete.
As profissionais acreditam que só as pessoas que já estavam realmente pensando em adotar uma criança continuam motivados para a adoção depois do desfecho de casos como o de Leriel. ''Quem já estava amadurecendo a idéia da adoção, vai atrás para conseguir outra criança e não aquela especificamente. Quem se entusiasmou somente por 'aquela' criança, 'naquela' situação, acaba desistindo'', enfatizou Salete.
As psicólogas acreditam que não é só necessário estimular as adoções em qualquer situação, mas mudar o conceito da adoção, de que o filho é somente o recém-nascido e semelhante aos candidatos a pais. Em Londrina, por exemplo, a fila de espera para adotar uma criança tem 196 pessoas habilitadas, a maioria interessados em bebês, nenhum deles cadastrado para adotar crianças com mais de oito anos. ''É preciso mobilizar o coração das pessoas para aceitar o diferente'', disse Salete.


