O abalo sofrido pela candidatura de Roseana Sarney, a partir da investigação nos escritórios da empresa Lunus, será fatal para sua campanha. É possível que a candidata não resista a este fim de semana, renunciando à candidatura. O PFL cometeu o maior erro de sua existência, ao deixar o governo, sem antes ter examinado todas as possibilidades da candidatura Roseana, inclusive um ataque fulminante aos frágeis costados de Jorge Murad, que, já se sabia, se apresentava como o calcanhar-de-aquiles da mulher. A queda nas pesquisas deverá continuar, pois o rolo compressor da mídia, comandado pela poderosa Rede Globo, funcionará como máquina trituradora de carne e osso. Serra, o governador Garotinho e Ciro Gomes deverão se beneficiar. O PT precisa recolher a alegria que já se estampava na cara de seus dirigentes. Lula será apertado mais adiante. O eleitor tende a mudar a intenção de voto quando se depara com grandes denúncias. Recolhe-se ao abrigo dos menos acusados de corrupção, como tentativa de preservar seu próprio conceito de moral. Parcela dos votos migra para um espaço de centro, onde estão candidatos não posicionados às margens esquerda e direita. É a parcela que rejeita Lula. Garotinho, apesar de oposicionista, é embalado pelo evangelho e o torna um candidato confiável para setores conservadores. Já Ciro Gomes ganhará votos de grupos regionais e mesmo daqueles que o vêem como uma alternativa menos radical que Lula.
A pergunta mais recorrente é: a candidatura de Roseana foi derrubada? A resposta é: sim. Será um suicídio para o PFL continuar bancando Roseana. Até porque a governadora deve estar sofrendo muito e a sua dor projetará uma fragilidade que será negativa perante o eleitorado. Se a governadora fizer do limão uma limonada, sairá por cima. Trata-se de uma mulher de fibra, corajosa e determinada, que poderá tirar uma carta do colete. Mas, que carta? Será quase impossível sair atirando no marido, que se confessa o verdadeiro autor da arrecadação da dinheirama para o caixa dois da campanha. Portanto, quase ninguém acredita no suco desse azedo limão. A origem do dinheiro encontrado nos cofres de sua empresa deverá vir à tona. A renúncia de Murad do posto que tinha na administração maranhense e a explicação que deu não melhorarão a situação de Roseana. A imagem dos pacotes de R$ 50,00 é muito forte na cabeça do eleitor. Tem mais impacto que as próprias denúncias envolvendo fraudes junto à Sudam. O PFL está entre a cruz e a caldeirinha.
José Serra subiu porque o tiro de morteiro dado principalmente pela Rede Globo funcionou como fermento na massa da campanha. Precisa se precaver. Deverá haver troco. Os ataques virão, iniciados pelo trombeta do senador José Sarney, de quem se espera o mais agressivo discurso de sua vida. Deverá ser na próxima semana, logo após a volta da França, onde foi receber homenagem pelo lançamento de Saraminda. O PFL não deverá deixar barato. Vai buscar munição nos bastidores do BNDEs, Banco do Brasil e Fundos de Pensão, onde se diz ter Serra grande arrumação de espaços e interesses. O Palácio do Planalto, ou seja, a figura do presidente, também deverá receber fogo pesado. Essa história de fax transmitido, no meio da noite, para conhecimento do presidente, soa mal. Parece mais como recibo da fatura do negócio encomendado. Os dossiês sujos que chegam às redações e às mãos de candidatos adversários poderão funcionar como bumerangue, queimando principalmente a floresta dos tucanos.
As tendências apontam para o reposicionamento de Lula no espaço que já conquistara. Se José Serra ultrapassar a casa dos 20% nos próximos dias, terá consolidada a candidatura. Seu programa de TV foi bem feito e parcela de seu crescimento se deve ao forte aparecimento na mídia. É com muita pressão e visível ajuda da mídia do Sudeste que o ex-ministro da saúde está se livrando da pecha de pé-de-chumbo. E assim sufoca os pefelistas que gostariam de bancar o plano B da bancada situacionista, que seria o nome de Aécio Neves. O PFL bem que gostaria de resgatar a grande aliança entre PMDB, PSDB e PFL em torno do jovem presidente da Câmara. Mas com a subida de Serra, o projeto tende a ficar na gaveta.
Muita água, porém, vai correr debaixo da ponte eleitoral. Aguarda-se com ansiedade a solução para as dúvidas e impasses gerados pela coligação vertical. Se ela for derrubada, as antigas negociações entre os partidos voltarão com força. Se for mantida, restará, ainda, a dúvida que também deve ser tirada pelo TSE nos próximos dias: caso um partido não tenha candidato próprio e não faça alianças para presidente da República, poderá se coligar com quem quiser nos Estados? A resposta definirá, por exemplo, o rumo do PMDB, que, sob o aspecto de estrutura, ainda é o maior partido nacional. Itamar espera por isso.
Garotinho teria boas condições, caso dispusesse de mais tempo de exposição na mídia. Está se revelando um perfil maleável, articulador e com grande domínio temático, além de expressiva comunicação. Seu grande sonho é o de fechar uma aliança com o PMDB, coisa cada vez mais inviável pela disposição de cerca de 70% dos dirigentes em fechar aliança com o PSDB. Ciro Gomes, por sua vez, depende da decisão do PTB em permanecer na aliança com o PPS. Se sair, pela pressão monumental do Governo, será condenado ao esconderijo, em função do pequeno tempo de mídia eleitoral. Lula, no segundo turno, disputaria com quem? Possivelmente com Serra. Mas Garotinho e Ciro crêem em grandes milagres, principalmente agora que temos uma santa brasileira.
A única coisa certa é: teremos o primeiro presidente sob as bênçãos de madre Paulina, nossa primeira santa.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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