Abaixo o desperdício
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terça-feira, 11 de fevereiro de 1997
Antoninho Marmo Trevisan 
Na noite de domingo, atendo o telefone. É minha filha Carolina, ligando do celular, no quilômetro 74 da rodovia Castelo Branco, porque seu carro acaba de ser engolido por uma cratera na pista, danificando duas rodas e a suspensão. Até aquela hora, outros cidadãos, pagadores de pedágio, formavam com ela um desconsolado grupo tragado pelo mesmo acidentado destino. Embora isso viesse acontecendo desde a tarde, nenhuma placa havia sido colocada para avisar os incautos motoristas. O eficiente posto policial que funciona a poucos metros, ocupava-se de coordenar o caro serviço de guincho que, por módicos 350 reais, prontamente se apresentava para levar os carros para São Paulo.
Esta é uma faceta do chamado Custo Brasil, que transforma nossos produtos e serviços em um dos mais caros do mundo. Na década de 80, canalizamos para a infra-estrutura de transportes investimentos que variaram entre 1,5 bilhão e 2,5 bilhões de dólares por ano. Hoje, essas aplicações estão próximas de zero. Os governos têm muitas explicações para justificar por que esses recursos foram literalmente para o buraco. Mas se esquecem de avaliar pelo lado do desperdício. No campo da energia elétrica, por exemplo, perde-se 1 bilhão de dólares todos os anos por furto e falta de manutenção nos sistemas de geração e distribuição de energia. Se somarmos as perdas e desperdícios por consumo inadequado, esses prejuízos chegam a representar quase 40% do total da energia elétrica gerada. Uma lástima!
Pegue o que se desperdiça só em soja. Calcula-se que o País deixa de colher 24 milhões de sacas, o equivalente a 300 milhões de dólares todos os anos. Somem-se as perdas provocadas pela centena de quilômetros de congestionamentos quase todos os dias apenas na capital paulista e verifica-se que, enquanto o transporte coletivo leva 10 pessoas por metro quadrado de via pública, um automóvel com um ou dois passageiros ocupa sete metros. Já o metrô carrega 2 milhões e 500 mil pessoas por dia, mas só podemos contar com 45 quilômetros de linha.
Perceba o estrago causado pelas enchentes. Desperdício de tempo, de material, de gente, boa parte provocado pelos detritos lançados nas calçadas e nas ruas. Bitucas de cigarros ajudam a entupir bueiros e queimam florestas, por obra de desatentos fumantes que preferem lançá-las nos logradouros públicos. Preste atenção na construção de uma casa ou de um edifício. Toneladas de entulho são retiradas todos os dias, a ponto de ter florescido nos últimos anos uma próspera e prática atividade de tirar entulho. Entre preparar os alicerces e pintar uma casa, paredes são retalhadas, várias demãos de massas são aplicadas, passando por cima de desperdícios e perdas que se iniciaram lá atrás, no dimensionamento das estruturas.
Colecionei um pouco disso tudo para mostrar que não há mais espaço para perdas e desperdícios. As empresas são pressionadas todos os dias para reduzirem suas margens e os seus preços. É sem dúvida muito saudável para a economia de mercado. Mas muitas empresas seriam viabilizadas e inúmeras bocas alimentadas se formássemos um poderoso movimento contra as perdas e os desperdícios. No governo, nas empresas e nas nossas casas.
Para se ter uma idéia do que pode ser feito, conto o caso de uma empresa de varejo cujo consumo de canetas Bic era de tal monta, que com um processo de reeducação do pessoal e maior controle, chegou-se a uma economia capaz de pagar o salário de quase todos os diretores. Mas como em casa de ferreiro o espeto é de pau, aqui, na Trevisan, constatamos que, em 1996, consumimos disquetes de computador com tal voracidade e desperdício que dava para armazenar dados pelos próximos 10 anos. Treinamos nosso time e o consumo de disquete caiu para 5% do total.
Portanto, é preciso abraçar a causa. É necessário bater nessa tecla sempre. Por mais chato que possa parecer. Foi também eliminando desperdícios que nações tornaram-se mais prósperas e mais justas.


