A voz das urnas - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de outubro de 1998
Arlete Salvador 
Um outro governador Mário Covas surgiu com a vitória no segundo turno das eleições em São Paulo. No domingo, Covas começou o dia agradecendo os partidos que o apoiaram na guerra contra Paulo Maluf. Encerrada a votação, o governador reeleito creditou sua vitória aos aliados, a maior parte deles de partidos de esquerda. Abriu espaço para participarem de seu governo, alguns com cargos. É o caso do PSB da ex-prefeita Luiza Erundina, agora eleita deputada federal. Outros, como o PT, terão o direito de sugerir propostas e serem ouvidos nas decisões de governo para a área social. Nenhuma palavra pública de agradecimento ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Pouco lembrava o outro governador, que se elegeu em 1994 com o apoio do próprio Maluf.
O Covas que surgiu das urnas foi humilde o suficiente para reconhecer que parte dos votos que recebeu no segundo turno não era exclusivamente sua, mas de rejeição ao outro candidato. Na leitura feita por Covas do mapa eleitoral do segundo turno, e expressa em suas entrevistas logo depois da apuração, há uma nova ordem política no ar, em especial em São Paulo, que aponta para a centro-esquerda. O reconhecimento do resultado das urnas e a vontade de respeitá-la, sem dúvida, deu ao eleitor que fez voto útil em Covas contra Maluf a sensação da recompensa. Que falem as urnas!, costumava dizer o velho Ulysses Guimarães. Elas falaram e Covas as ouviu.
Os próximos ao governador lembram que este é o verdadeiro Covas, à vontade na centro-esquerda, pois coerente com sua história política. Passada a ressaca das comemorações com a vitória em São Paulo, os tucanos daqui cultivam a esperança de serem a força que vai liberar o presidente dos braços do PFL. Esse grupo, do qual o ministro Sérgio Motta era uma das vozes mais estridentes, ficou sem representante quando ele morreu, em março. Depois dele, ninguém mais falou mal do PFL no mesmo tom. O ministro da Saúde, José Serra, pelo empenho demonstrado na eleição dos candidatos do PSDB pelo País, fez um pouco o papel de Motta. Não falou alto, mas deu a cara para bater, inclusive em Brasília, ao declarar apoio a Cristóvam Buarque.
O tucanato nacional atribui a esperança do grupo ligado a Covas à mania paulista de pensar com o próprio umbigo. O cenário no Congresso, com um pacote econômico para ser aprovado às pressas, não é dos melhores para o PSDB sozinho. O presidente Fernando Henrique Cardoso precisa dos aliados do PFL para colocar de pé o ajuste fiscal. Há ainda a choradeira dos derrotados, ansiosos para serem recompensados pela perda de mandato (nunca vou entender um país onde os reprovados nas urnas, pela população, ganham prêmios de consolação no governo, mas isso é tema de outro artigo) e dispostos a fazer a vida do presidente um inferno.
Há uma boa dose de razão em ambos os lados. Pode não haver vencedores, mas que o jogo ficou mais equilibrado, lá isso ficou.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


