A vontade do povo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de janeiro de 1997
Rubem Azevedo Lima 
Caiu de 46 para 38%, em dois meses, a resistência dos brasileiros à mudança da norma da Constituição que proíbe o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso ou qualquer outro, de concorrer à reeleição no período subsequente ao do término do seu mandato.
Personalizada como está sendo feita a pesquisa, supõem os pesquisadores que as pessoas pesquisadas entendam, perfeitamente, os motivos pelos quais as constituições presidencialistas do País sempre impediram tais reeleições. A rigor, dentre os países presidencialistas, só os Estados Unidos sempre aceitaram a reeleição de seus presidentes.
Os exemplos novos de presidencialismo com reeleição não entusiasmam: Peru, Argentina e Romênia, todos recém-saídos de ditaduras. O Peru, no curso de sua primeira reeleição - aprovada a pretexto de que Fujimori acabara com as guerrilhas no país - mostra hoje ao mundo a mentira que o governo peruano espalhou para poder reeleger-se. Na Argentina, o ex-ministro Domingo Cavallo, mentor do plano econômico de controle da inflação no país, diz agora ter vergonha de haver integrado a equipe de um governo tão corrupto como o de Menem. A situação sócio-econômica da Romênia continua crítica, mas qualquer governo, ali, mesmo ruim, não igualaria o descalabro do regime anterior.
O que faz, afinal, diminuir a resistência à reeleição de FHC? É um mistério. O índice de desemprego no País está alto, mas o governo facilitou ainda mais a demissão de trabalhadores. O Executivo envolveu-se em operações escabrosas, como a quebra do sigilo bancário de adversários políticos. Os problemas de saúde, educação e habitação persistem. As estradas estão semidestruídas. Aposentados, pensionistas e servidores do Executivo - excetuados alguns privilegiados - não têm reajustes há dois anos. O dinheiro do Proer está rolando.
Por que, então, diminuiu o número de brasileiros contra a reeleição? Será só pelo controle da inflação? Mas o ex-presidente Itamar, criador do Plano Real, também manteve tal controle, com uma vantagem: não gastou dinheiro em publicidade para mostrar o que fazia. Não será essa a diferença entre ele e FHC, que aplica R$ 400 milhões do Orçamento em publicidade, recurso capaz de criar 200 mil empregos por ano, com um salário mínimo por mês?
De qualquer modo, o índice de 38% de brasileiros que aceitam a reeleição de FHC, faltando apenas um mês para que os deputados decidam sobre esse assunto, é muito inferior à porcentagem dos que apoiavam o atual presidente, quando ele era candidato, 30 dias antes da eleição presidencial de 1994. Portanto, a menos que se dê um milagre de conversões nessa matéria ou que as pesquisas já não valham nada, as cifras divulgadas pela imprensa não devem bastar para agir como instrumento de pressão contra a consciência e as convicções dos congressistas. Pois o Congresso - dizia Ulysses Guimarães - sempre faz o que o povo quer. E a reeleição, pelo jeito, é só uma aspiração minoritária no País.
- RUBENS DE AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. O jornalista Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está em férias


