A volta por cima de Bill Clinton - Maria Lucia Victor Barbosa
A volta por cima de Bill Clinton
Maria Lucia Victor Barbosa
Não foi difícil derrubar o presidente Collor. Ele prometera acabar com a inflação com um só tiro, mas não conseguiu realizar a tão esperada façanha. O tiro, isso sim, foi dado por seu irmão contagiado pela síndrome de Caim, e a partir daí os adversários do presidente criaram um clima emocional baseado no aspecto moralista, mostrando, inclusive, que o Indiana Jones que denunciara a corrupção era ele mesmo á- um corrupto porque ficara com dinheiro de campanha, coisa que nenhum político brasileiro faz porque vivemos no país mais honesto do mundo.
O resultado de tudo foi o desencanto popular, o que facilitou a derrubada de Collor por seus inimigos e concorrentes derrotados na campanha presidencial. Como escreveu Maquiavel em sua magistral obra, O Príncipe: É necessário que o príncipe tenha o favor do povo, senão, lhe faltarão recursos na adversidade. E em outro capítulo do livro, repetirá a idéia: Um dos remédios mais poderosos contra as conspirações é não ser odiado pela massa popular.
Collor tornou-se odiado pelo povo. Um ódio bem trabalhado politicamente e divulgado com imenso sucesso pelos meios de comunicação. Afinal, a mídia conhece o prazer que os escândalos propiciam à opinião pública, conhecimento que se origina na observação dos micromundos particulares que incluem, para cada indivíduo, sua família e a roda de conhecidos.
Nesses mundinhos, transgressões morais de qualquer tipo por parte de um dos membros do grupo propiciam aos demais o sabor que faltava ao cotidiano insosso, alimentam as conversações com novas intrigas e abastecem existências medíocres com estimulantes escândalos. Ainda por cima, os pecados de familiares e amigos dão aos que os comentam e censuram aquela sensação maravilhosa de superioridade, e a aparência de honestidade que torna as pessoas respeitáveis, mesmo que já tenham feito coisa pior.
Quanto a transpor do privado para o público estes exercícios de hipocrisia, é apenas questão de foco e de dimensão. O foco é dirigido do âmbito particular dos grupos íntimos e anônimos para a esfera pública, onde se movem governantes, políticos em geral, astros do cinema, da televisão e da música, enfim, figuras conhecidas por toda sociedade.
Para os mais importantes existe uma ampliação de suas ações que adquirem dimensão planetária através dos meios de comunicação, notadamente da televisão. Recorde-se aqui a princesa Diana, que não podia espirrar sem ser fotografada e filmada por uma horda de jornalistas desesperados por um escândalo, e que acabou morta ao fugir dos paparazzi.
Pois bem, o presidente dos Estados Unidos, por ser o homem mais poderoso do planeta, não poderia deixar de ser o mais visado, como o foram seus antecessores. E seu país e o mundo acompanham agora mais um escândalo envolvendo a vida íntima do presidente. Um duvidoso escândalo em que as supostas vítimas, ou seja, a nariguda Paula Jones (será que o presidente teria tanto mau gosto?) e a gorduchinha Monica Lewinski acusam Clinton de assédio sexual etc., apesar de não haver nenhuma prova concreta.
Não é a primeira vez que Clinton é acusado. Entretanto, por sua capacidade de dar a volta por cima, ganhou o apelido de Come-back kid. Essa habilidade, aliás, ficou bem clara quando de sua visita ao Brasil no ano passado. Naquela ocasião, a pretexto de criticar o excesso de segurança exigida pelos norte-americanos, a imprensa por tabela caiu de pau nos Estados Unidos e em Bill Clinton. Mas ele deu a volta por cima. Jogou bola, tocou tamborim e saiu do país com a Mangueira sambando atrás. Ficasse mais aqui e seria convidado para desfilar no Sambódromo em alguma escola, homenagem suprema que no Brasil se confere a uma personalidade.
Agora, quando muitos apostaram no impeachment de Clinton, ele deu a volta por cima e conseguiu reverter a opinião dos seus concidadãos. Em muito foi ajudado por Hillary Clinton, que defendeu bravamente o marido na televisão. Mas o que mais contou para a virada de Clinton foi seu governo bem-sucedido, que durante cinco anos trouxe ainda maior prosperidade aos Estados Unidos.
Bill Clinton obteve crescimento alto e constante, praticamente com pleno emprego, com taxas baixas de inflação e crescente índice de produtividade. Está, agora, obtendo o que durante anos se julgou impossível: reduzir o déficit federal do corrente ano fiscal para apenas US$ 10 bilhões - quando assumiu, há cinco anos, o déficit projetado para 1998 era de US$ 357 bilhões, ou pouco menos da metade do PIB brasileiro - e apresentar uma proposta orçamentária equilibrada para o exercício de 1999. (O Estado de S. Paulo, 29/1/98).
No discurso sobre o estado da União, apresentado no Congresso, e que começou com a frase estes são bons tempos para os Estados Unidos, Clinton delineou seu programa de governo para os próximos anos enfatizando áreas sociais como educação e seguridade. Foi interrompido quase cem vezes por aplausos e sua popularidade alcançou altíssimos índices. Com o povo ao seu lado, não vai ser fácil derrubá-lo. Maquiavel que o diga.
- MARIA LÚCIA VICTOR BARBOSA é socióloga





