EditorialA volta dos pacotes
O anúncio do ministro interino da Fazenda, Pedro Parente, de que o governo já admite a hipótese de baixar novo pacote fiscal, naturalmente preocupou a população, que em tais circunstâncias é quem acaba ‘‘empacotada’’. O interino assinala que o aumento do déficit público não deixa muitas alternativas, até porque o quadro que se agrava põe em risco toda a estrutura da política econômica, centrada no combate à inflação. O que mais revolta, porém, diante do anúncio da repetição do que ocorreu em novembro, é perceber que, como de costume, ponderável parcela desta situação potencialmente perigosa em relação às contas públicas decorre do fato de o governo não ter realizado sua parte.
Com efeito, o povo, mais especificamente o contribuinte, não escapa nunca dos pacotes oficiais. Novos tributos, altas nas alíquotas, aumento nas contribuições vêm de imediato. Atingem a todos, sem apelação. Mas a parte do governo, a contenção nos gastos, o trabalho para pelo menos reduzir a sonegação, a luta contra a corrupção e as fraudes, nada disso acontece. O recente e pesado pacote de novembro é um exemplo. A população recebeu o impacto das medidas, mas não a contrapartida oficial, que previa até redução no quadro de pessoal do setor público. E como este é um país de memória curta, quase nem há cobrança sobre a inação das autoridades em cumprir a parte que lhes cabe nos sacrifícios que são impostos a todos. Os bons propósitos anunciados pelo governo, que garantiu dar sua parte para o sucesso dos pacotes, sempre são rapidamente esquecidos. E se, como está acontecendo agora, houver a necessidade de jogar pela goela abaixo dos contribuintes mais alguns sacrifícios, o governo o fará, sem nenhuma dor na consciência.
Acontece que foi este governo quem provocou, pelo sucesso do plano de estabilização e por tudo o que envolveu a queda violenta da inflação que massacrava o Brasil, mudança substancial na própria forma de ser do brasileiro. Naturalmente, a semente dessa transformação, que se observa de modo claro no comportamento de ponderável parcela da população, vem de uma época anterior, da luta real que se travou contra a ditadura, a partir dos anos 70. A redemocratização acabou coincidindo com um agravamento inflacionário e muitos vícios do tempo do totalitarismo persistiram, inclusive a mania de jogar pacotes sobre o povo, como remédios para todos os males. No momento em que, sem choques e sem abalos maiores, surgiu um projeto eficaz contra o descalabro econômico, a consciência de cidadania ganhou força e hoje o brasileiro sente que não pode ser tratado sem respeito a seus direitos mais simples. E já não aceita mais a volta ao estilo do ‘‘empacotamento’’ oficial.
Não deve existir no planeta povo mais cooperativo que o brasileiro. O que aconteceu aqui ao longo dos anos da ditadura, com o agravamento terrível da situação econômica, com a inflação desbragada ao lado de tanta corrupção e abuso, representou enorme desafio e grande aprendizado. Mais importante: diante de circunstâncias tão graves, o povo soube resolver problemas sem apelar para a anarquia e a violência. Aceitou sempre os sacrifícios impostos pelos governantes. Tem, porém, neste momento, não só o direito mas a consciência que o faz cobrar dos governantes seriedade, honestidade e respeito. Preocupa-se quando sente no ar como que um retorno a tempos mais irresponsáveis, quando era vítima passiva dos erros e abusos dos que o governavam. E, seguramente, não quer a volta ao passado, nem da inflação, claro, mas também da época em que tinha de pagar sozinho todas as contas.

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