O Congresso dos Estados Unidos aprovou, em setembro, o maior pacote de ajuda da história agrícola daquele país, envolvendo recursos da ordem de US$ 6 bilhões. Por outro lado, a União Européia aumentou em 21% os subsídios aos produtores de trigo, ao tempo em que os produtores de açúcar e de carne bovina também receberam maiores incentivos. As informações relativas a este apoio direto dado pelos governos dos Estados Unidos e da Europa à produção agropecuária foram fornecidas pelo chefe do Departamento de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Agricultura, Antônio Donizeti Beraldo, e representam um alerta diante da situação que se cria com a retomada do protecionismo oficial para a agricultura. Por outro lado, evidenciam também a visão renovada de lideranças de países considerados industrializados e avançados sobre o papel que a agricultura e a pecuária exercem na vida dos seus povos.
Chega a ser quase uma retomada do antigo postulado que norteou muitos países no passado e que dizia que ‘‘se as cidades se incendiarem, o campo as reconstruirá, mas se o campo se incendiar, as cidades morrem de fome’’. Esta é a idéia básica que serviu, inclusive, para forjar as grandes potências da atualidade, que construíram sua riqueza tendo como base o campo. Os Estados Unidos, com seu imenso território, souberam usá-lo, transformando-o em celeiro capaz de alimentar uma população crescente e de criar excedentes que ajudaram a fazer a riqueza da América. Já na Europa, na falta de territórios, as potências adotaram a política colonial, dominando terras em outros continentes e fazendo delas a base para o seu crescimento econômico, caso típico da Grã-Bretanha, uma ilha que se tornou, em determinado período, a potência sobre a qual o Sol jamais se punha.
Nesta era de globalização, de economias interligadas, a base continua a ser fundamental, como o percebem Estados Unidos e os países da União Européia. Já na semana passada, o presidente norte-americano, Bill Clinton, ameaçou o Japão com a adoção de medidas protecionistas internas, caso não houvesse uma mudança na atitude comercial daquele país. O Japão, como se sabe, apesar da crise, continua a ter maciços superávits na balança comercial, enquanto os Estados Unidos amargam seguidos déficits. Naturalmente, é outra situação, mas a ameaça do protecionismo constitui sempre um perigo para nações mais fracas. E é certo que políticas de maior estímulo direto à agricultura, como as adotadas pelo Congresso dos EUA, configuram também um tipo de proteção que torna menos competitivos os produtores de fora.
Apesar de haver um aparente esforço global contra o protecionismo e a política de subsídios, a verdade é que muitos países continuam a adotar medidas de proteção. A resposta para isto, naturalmente, deveria ser a adoção de medidas similares pelos outros países, o Brasil, por exemplo. Infelizmente, porém, além de prevalecer por aqui a estúpida visão antiagricultura, os políticos nacionais parecem sempre muito dispostos a não fazer nada que possa beneficiar o trabalho de quem produz no campo. Até mesmo a atual política de redução de gastos públicos é apontada como motivo para não se dar à lavoura e à pecuária o apoio que reclamam.
É preciso mudar esta idéia, perceber que o campo continua a ser o grande capital que o Brasil tem para superar todos os seus problemas. Ademais, investir na agropecuária não é gerar despesa, é estimular uma atividade que devolve com juros tudo o que se aplica nela. Já que outros países se lançam ao protecionismo, o Brasil não pode ficar inerte e deve estimular e subsidiar seus produtores, sem receio ou preconceito.

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