A volta do ideal do café
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de junho de 1997
Walmor Maccarini 
Em certo período de sua história o Norte do Paraná produzia a metade do café do Brasil, enquanto o Brasil era responsável pela metade da produção mundial. Nessa época não havia luta dos pés-vermelhos com o governo estadual, porque para esta região ele pouco significava. Pelo contrário, a força político-econômica do Norte é que representava o verdadeiro Paraná. Ninguém se reportava à capital do Estado, mas a Brasília e ao Rio de Janeiro (onde estava a sede nacional do IBC), porque a política do café era gerida pelo governo federal.
Nossos meninos, hoje, não conhecem um pé de café, planta que naqueles anos verdes formava uma floresta que começava nas fronteiras com o Estado de São Paulo e chegava até metade de nosso território estadual. Voava-se duas horas de avião bimotor para cobrir de um extremo a outro esta enorme fazenda cafeeira.
A imprensa nacional e internacional escrevia que no Norte do Paraná dinheiro dava em árvore. E não era mentira. A árvore era o cafeeiro.
Geadas danificaram as plantações, muitas vezes, mas não o ânimo dos cafeicultores.
Até que amanheceu o dia 20 de julho de 1975 e o café literalmente desapareceu da face do Paraná. A geada negra dessa madrugada fatídica, seguida de outra muito forte da madrugada anterior, não deixou viva uma só planta.
Essa tragédia que se abateu sobre os cafezais mudaria os rumos da história paranaense. A partir daí ninguém mais queria plantar café, a não ser alguns renitentes, contados nos dedos da mão. Os fantasmagóricos arbustos secos dos cafeeiros foram arrancados e em seu lugar floresceram a soja, o trigo, as pastagens. Tradicionais cafeicultores perderam sua identidade, já não se reconheciam, vagavam meio perdidos. Londrina, a Capital do Café, de repente já não era; o Palácio do Café, imponente edifício central que sediava escritórios de comercialização do produto, perdera seu rei e sua soberania.
Muitos viram nessa tragédia uma maldição, atribuida à heresia de, anos antes, o Paraná haver queimado toneladas e toneladas de café, por excesso de produção e para sustentar preços no mercado internacional. Em Londrina (em terreno não muito distante dos fundos do Shopping Catuaí), viu-se uma montanha de café ir definhando pelo fogo em brasa, que ardeu durante semanas. Uma lenta agonia que não encontrava resposta à luz da sensatez. Se era para queimar um alimento, se esta era a vontade dos homens, então Deus os atenderia nesse seu desejo e lhes mandaria uma geada que queimaria não só o produto mas também a planta. Esse fogo gelado dizimaria de uma só vez todos os cafeeiros, até às raízes. Assim foi.
Doze anos atrás, ainda entorpecida pelo aroma de café queimado que envolvia a atmosfera, a Folha de Londrina lançava uma campanha que visava restabelecer a cultura cafeeira no Norte do Paraná, junto com um projeto de diversificação agrícola. Os resultados finais foram considerados satisfatórios, levando-se em conta que ainda imperava grande receio pela retomada dessa cultura. Ironicamente, de 1975 até hoje passaram-se 22 anos e, praticamente, não mais geou, ao menos não uma geada que pudesse destruir os cafeeiros.
É, pois, com alento que assistimos, agora, ao lançamento de nova ofensiva para o plantio de mais café, com o propósito de transformar o Paraná, novamente, em grande produtor. Hoje, com 2 milhões de sacas anuais, o Estado ainda ocupa um 3º lugar, depois de Minas e Espírito Santo. Convênio assinado segunda-feira em Londrina pelo governador Jaime Lerner, com 188 prefeituras e associações de cafeicultores, terá a verba oficial de 4 milhões de reais para a produção de 130 milhões de mudas este ano e 200 milhões no ano que vem, para plantio em pequenas áreas pelo sistema de adensamento, com variedades mais produtivas e mais resistentes, e baixo custo, conforme modelo tecnológico desenvolvido pelo Instituto Agronômico do Paraná. (É esse órgão de pesquisa, implantado com dinheiro oriundo do café, retribuindo com dividendos a generosidade)!
O convênio objetiva cultivar 25 mil novos hectares de café. As mudas serão vendidas pelas prefeituras e associações a preços abaixo do mercado, ou doadas, segundo a decisão de cada uma. As regiões contempladas são as centralizadas por Londrina, Apucarana, Maringá, Campo Mourão, Paranavaí, Umuarama, Toledo, Ivaiporã, Cornélio, Jacarezinho e Cascavel.
Trata-se de um programa de apoio à pequena propriedade rural. Plantado em áreas menores, o café adensado possibilita aumentar o volume de 2 mil plantas atuais por hectare para 5 vezes mais, além disto permitindo um mais fácil manejo e mais fácil proteção na iminência de geada.
O que entusiasma é a volta do ideal do café neste Norte do Paraná, cujas cidades cresceram à sombra dos cafezais. O café rememora períodos de prosperidade, época em que eram construídas a um só tempo e a toque de caixa cidades como Londrina, Maringá, Apucarana, Arapongas, Campo Mourão, Umuarama, Cianorte, Paranavaí, Cornélio Procópio.
Aqueles eram anos de riqueza!
Hoje, só de ouvir falar de café os ânimos se reacendem, revigoram-se as esperanças. Os mais nostálgicos se emocionam e embargam a voz.
O Norte do Paraná tem uma dívida com o café.
Café é palavra nobre. É contagiante. Tem magia!


