O conceito de valor está de volta. Depois de duas décadas de inflação crescente, em que qualquer referencial de preço era corroído pelo incessante aumento do custo de vida, os brasileiros estão vivenciando um novo ciclo nas relações comerciais, raramente presenciado no País. Se antes éramos obrigados a aceitar passivamente os preços que nos eram impostos, com a chegada do Real o quadro mudou substancialmente.
Hoje, o brasileiro tem instrumentos para saber o que é caro ou barato. O consumidor readquiriu a noção de valor e pode saber quanto custa cada produto. Como os preços estão mais ou menos similares, ele pode avaliar não só o que está sendo praticado nesta ou naquela loja, ou a relação entre produtos concorrentes, mas também usufruir da competição entre as redes varejistas. Mas a dispersão de preços, que no atacado caiu para 25% se comparada a julho de 1994 e se mantém próxima desses números no varejo, sinaliza ao consumidor que ele deve continuar pesquisando onde comprar.
A consequência do acirramento da concorrência está mexendo fortemente com a cadeia produtiva. Os reflexos desse novo ciclo já estão presentes no varejo. Com o fim da especulação financeira, a indústria e o comércio estão sendo obrigados a reduzir cada vez mais seus custos operacionais. Mais do que isso, estão cortando progressivamente as margens de lucro - que ainda continuam elevadas, quando se compara com o que é praticado nos Estados Unidos e na Europa - em busca de dinamismo e agressividade de mercado.
Evidentemente esta evolução traz vantagens não só monetárias para o consumidor. Está se cristalizando cada vez mais a busca por qualidade em produtos e serviços.
O conceito de valor agregado - relação entre qualidade e preço - ganha terreno no dia-a-dia e no processo de tomada de decisão ao comprar. Ambiente agradável, proximidade das residências, bom atendimento e rapidez dos caixas devem garantir fidelidade aos pontos de venda. O comportamento do cliente passa a ser norteado pela conveniência, pelo nível de serviços e pelo sortimento de mercadorias, adequado às suas necessidades.



Está se cristalizando
cada vez mais a busca
por qualidade em
produtos e serviços


A estabilidade da moeda está levando o brasileiro a ir com maior frequência aos supermercados. Sem a necessidade de fazer uma única e enorme compra de mês, o consumidor está começando a repor os itens domésticos que lhe faltam nas lojas da vizinhança, dando-lhes uma importância muito maior do que essas lojas tinham antes da estabilização da economia. Outros fatores que concorrem para a valorização da loja de vizinhança são a falta de tempo e o stress diário dos grandes centros urbanos do País, que fazem com que o consumidor evite se locomover distâncias maiores, sempre que possível.
Como consequência, os supermercados de bairro já estão se movimentando em direção à modernização e automação de suas lojas, para se transformarem em verdadeiras lojas de conveniência. As padarias caminham no mesmo sentido. As lojas de serviço 24 horas e as compras eletrônicas sem sair de casa - feitas via televisão e internet - vieram para ficar. Os hipermercados, por sua vez, estão atraindo consumidores interessados em fazer grandes compras a preços mais baixos. No futuro, eles devem se transformar em centros regionais, atraindo para o local onde estão instalados pequenas lojas especializadas, complementares ao seu mix de ofertas, oferecendo produtos e serviços a preços adequados ao público alvo da região, tais como pequenos consertos, locação de vídeos, lavanderia, serviços bancários 24 horas, revelação de filmes, venda de flores, fast food, etc.
Estamos vivendo no limiar de um novo ciclo, que deve alterar profundamente as relações comerciais até aqui estabelecidas. As empresas que sobreviverão a estas mudanças serão aquelas que souberam reconhecer, no momento certo, a importância de se ajustar às novas exigências dos mercados.

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