A volta da incerteza - Kido Guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de fevereiro de 1999
Kido Guerra 
Desemprego recorde, reajustes injustificáveis e abusivos de preços, trocas-relâmpago de presidentes do Banco Central, acentuada queda da produção industrial, variação brusca e diária do dólar, pressão internacional via Fundo Monetário Internacional, recessão.... Quem está com a memória em dia, com certeza lembra-se que já viu esse filme. Foi assim durante toda a década de 80, e a primeira metade dos anos 90.
É verdade que, do ponto de vista macroeconômico, vivemos uma realidade totalmente diferente, inseridos num planeta cada vez menor, sem fronteiras econômicas, em que a interdependência é determinante.
É o que se convencionou chamar de globalização da economia, o que na prática acaba representando uma versão contemporânea do mercantilismo dos séculos XVI e XVII. Assim como os navegadores europeus descobriam novos portos além-mar, os mercantilistas desse fim de milênio descobrem onde ancorar seu capital e investir.
Enquanto os antigos mercadores sugavam as riquezas dos emergentes da época (emergentes nos mapas da civilização ocidental, é bom frisar), os de hoje visam juros e lucros imediatos, embora também realizem investimentos permanentes.
Nesse aspecto, é preciso reconhecer as vantagens da globalização, que sem dúvida permitiu, e ainda deverá permitir por algum tempo, o desenvolvimento dos países emergentes desse fim de milênio, como os Tigres Asiáticos e o próprio Brasil, apesar dos sustos.
São essas as regras do mercado, que favorecem a quem as determinou. E para saber quem as determinou e quem mais se beneficiou com a globalização, basta recorrer a um estudo do economista Philip Suttle, do banco de investimentos JP Morgan.
Segundo Suttle, em 1992 as empresas das seis maiores economias do mundo (Estados Unidos, Alemanha, França, Japão, Grã-Bretanha e Canadá) produziam lucros em torno de US$ 1,7 trilhão. Em 1998, ou seja, seis anos depois, com a globalização a todo vapor e depois das crises mexicana, asiática e russa, os lucros haviam chegado a US$ 2,2 trilhões, como consequência da abertura comercial e liberalização financeira no Planeta: 38% dos quais colhidos pela economia norte-americana.
Enquanto se discute se foi correta ou não a liberação do câmbio para acabar com o artificialismo da cotação do real e falarmos o idioma do mundo globalizado, o cidadão comum do Brasil se pergunta o que fazer e como reagir diante dos novos tempos que com absoluta certeza virão.
Hoje o que se quer mesmo saber é se o governo federal, que tanto demorou para admitir a gravidade da crise instalada, terá capacidade de reinserir o Brasil no estrito clube dos países viáveis.
O que se quer mesmo saber é o que a atual crise vai gerar em termos de desemprego e inflação no País, e quanto serão prejudicados setores já críticos da realidade nacional, como a saúde e educação.
Se, em quatro anos de aparente estabilidade econômica proporcionados pelo Plano Real implantado e desenvolvido pelo governo, o desemprego e os problemas sociais aumentaram, o que podemos esperar do futuro a médio prazo, e meio a tanta turbulência?
É essa resposta que o governo deve à população.
- KIDO GUERRRA é jornalista em Brasília


