O presidente da República terá que vencer a vaidade exagerada e reapresentar à sociedade brasileira seu programa de governo para os próximos quatro anos. As 331 páginas de promessas do livro ‘‘Avança, Brasil’’, que ele exibiu na campanha eleitoral de 1998, viraram peça de ficção.
O presidente começou o segundo mandato convencido de que faria uma administração exemplar, melhor do que a primeira. Queria entrar para a história como o homem que devolveu ao povo o orgulho de ser brasileiro. Enganou-se o presidente ou estiveram equivocados seus eleitores?
Em seu primeiro discurso como presidente reeleito, Fernando Henrique, do alto de seu orgulho, disse que não queria ser gerente da crise. Referia-se à crise que se instalara em outubro de 1998. Mas àquela altura o presidente sabia que coisa pior estava por acontecer.
Prometeu superar a crise (a primeira, do ano passado) e cumprir as promessas de campanha, mas não falou do que vinha em janeiro. ‘‘Quero continuar a construir uma economia estável, moderna, aberta e competitiva. Prosseguir com firmeza na privatização. Apoiar os que produzem e geram empregos’’, prometeu.
Mal acabou de falar, e o Fundo Monetário Internacional deu a Fernando Henrique as regras possíveis para recolocar o País na trajetória ‘‘de um crescimento sustentado, sustentável e com melhor distribuição de riquezas’’, como queria o presidente.
Foi tamanha a interferência do FMI que o assunto não escapou ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. Em mais de uma oportunidade, o ex-governador baiano - uma das vozes mais retumbantes do País - lamentou a intromissão do Fundo na vida do País.
Antonio Carlos deu a impressão de que o governo andava afônico, combalido. Reclamou da falta de empenho do presidente e dos governadores para contornar a crise. Inspirado no Marquês de Olinda, pregou a máxima de que ‘‘governar é pactuar’’.
Aparentemente, Fernando Henrique pegou esse rumo. Na reunião dos governadores de sexta-feira, bateu menos e propôs mais. Mesmo assim, os brasileiros cobram do presidente um comportamento mais transparente, com honestidade e sinceridade em suas promessas, projetos e propostas de governo.
Dizer exatamente o que pode e o que não pode fazer em favor do País é obrigação do presidente da República. Não serve mais como referência o livro de campanha, um conjunto de desejos impossíveis, metas otimistas demais para um cenário escuro, imprevisível.
Então, que objetivos estaremos perseguindo nos próximos quatro anos? Se não der satisfação aos eleitores, é possível que todos deixem cair no esquecimento as promessas - vãs. Atenderão dessa maneira ao próprio Fernando Henrique que um dia sugeriu aos brasileiros: ‘‘Esqueçam o que eu escrevi’’.
Será assim com a afirmação de que as políticas públicas melhoraram. A seca voltou a se alastrar pelo Nordeste, a cólera voltou e milhares de alunos estão sem escolas. E, o pior, a inflação é de novo um fantasma rondando a vida dos brasileiros.
Da vitrine original, sobrou pouca coisa para ser exposta. Se Fernando Henrique não tiver coragem para mostrar o que tirar do antigo cenário, correrá o risco de ver transformada a vitrine em telhado de vidro. E, infelizmente, pedras é que não faltam.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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