A vitória do voto racional
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de outubro de 2002
Gaudêncio Torquato 
O Brasil acaba de passar pela eleição mais racional do ciclo da redemocratização. Esta hipótese pôde ser percebida e comprovada de diversas maneiras, a partir da evidência maior, a avaliação do interesse do eleitor pelo processo eleitoral. A queda do índice de abstenção, de 21,4%, em 1998, para os atuais 17,8%, e a expressiva diminuição do número de votos nulos e brancos, de 18,7% para 10,3%, estão a evidenciar a vontade do eleitor em imprimir uma decisão mais autônoma no processo político. A partir da esfera dos números, a radiografia da racionalidade aponta indicações que exprimem o amadurecimento do eleitor. Vejamos algumas delas.
O maior tempo de rádio e televisão de toda a história dos pleitos no País, em todos os níveis, foi usado pelo candidato Orestes Quércia, em São Paulo. Como candidato ao Senado, usou, além de seu tempo, o espaço destinado aos candidatos a governador, deputado federal e deputado estadual. Fossem medidos os espaços em termos de GRP (Gross Rating Point), que dimensiona o tamanho de uma campanha e a equivalência em termos de audiência, bateria as campanhas anuais de campeões brasileiros de propaganda, que pagam dezenas de milhões de reais para vender seus produtos. O eleitor não ''comprou'' a mercadoria quercista, na demonstração inequívoca de que mídia não elege candidato. Vitória do voto racional.
No plano da campanha presidencial, ao contrário da leitura que se costuma fazer a respeito da eficácia dos aparatos de marketing na eleição dos candidatos, os méritos e deméritos devem ser atribuídos a cada perfil e a suas histórias. Os programas e propostas não fizeram a cabeça do eleitor, induzido a votar nos candidatos em função das significações percebidas e dos benefícios que poderão proporcionar. A rejeição ao continuismo, a identificação com a mudança equilibrada, o preparo e a experiência, o carisma e a tecnocracia, a jovialidade e o ''fairplay'', o destempero verbal e arrogância foram alguns dos vetores que influenciaram a decisão do eleitor. Não se escolheu o marketing, mas o perfil, em mais uma constatação de que o eleitor não se deixou levar pela engenharia da embalagem. Vitória do voto racional.
A onda do voto consciente baniu um grupo de políticos da velha guarda, a partir de Paulo Maluf, em São Paulo, e Gilberto Mestrinho, no Amazonas. Foi um ato de condenação aos velhos perfis e às tradições corroídas da política feudal praticada em algumas unidades federativas. O caso do Piauí é emblemático. Um filho de lavrador, Wellington Dias, do PT, derrotou um dos grandes caciques do mandonismo regional, Hugo Napoleão, governador, do PFL, apesar de este contar com o apoio de mais de 80% dos prefeitos do Estado. Feudalismo, caciquismo e familismo não mais elegem candidatos como antigamente. Vitória do voto racional.
Os resultados mostram ainda que o eleitorado fortaleceu as oposições, por meio do aumento de bancadas de partidos que se opõem ao Governo. A campanha foi essencialmente fulanizada. E até nesse caso, o eleitor votou racionalmente, escolhendo na chapa de seis nomes representantes de vários partidos. A salada eleitoral exibiu um olho crítico e seletivo, na idéia de pinçar os melhores de todos os partidos. Claro, exceções sempre há. Mesmo o voto de protesto, que pode se identificar, por exemplo, com a onda ''Enéas'' e seus 1.566.739 votos, tem forte componente racional. Indica a contrariedade de eleitores dispersos que, de repente, acharam um motivo para se rebelar contra a situação.
A barba e a careca de Enéas, como logotipos, e o linguajar disparado reforçam a visibilidade de um ícone de indignação social. Mais do que ''Cacareco'', um rinoceronte que ganhou 100 mil votos dos paulistanos para se eleger vereador, em 1959, ou o Macaco Tião, que ganhou 400 mil votos para prefeito, no Rio de Janeiro, em 1988, Enéas, como medico e professor de medicina, sabe o que quer e está se preparando para abrir espaços de uma ideologia com certo sabor ''nacionalista-ufanista-messiânica''. Pode até ser um engodo e motivo para corrigir as distorções existentes no conceito de coeficiente eleitoral, mas seu voto veio de estratos diferenciados.
As razões expostas permitem divisar o crescimento do voto racional no segundo turno. Mais curta e enxuta no campo dos discursos e dos perfis, a campanha abrirá espaços idênticos aos dois candidatos para exprimir o ideário, facilitando o processo de cognição das idéias e percepção dos valores e propostas. A sistemática amplia as possibilidades do voto consciente pela oportunidade de o eleitor poder fazer uma objetiva e clara comparação entre os conceitos dos dois candidatos. Quem ganha com tudo isso é a democracia brasileira que, pouco a pouco, vai arquivando no baú do passado as mazelas da nossa política.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político


