Nesta semana, o eleitor brasileiro acordou do delírio eleitoral e se sentiu lesado. A pergunta era uma só: como foi possível que os institutos de pesquisas errassem tanto? Candidatos que eram dados como perdidos por estes institutos, apareceram na segunda-feira pomposamente vitoriosos. Há certas coisas, como a manipulação em política, de difícil explicação, dado ao descaramento com que são feitas. Os 3 milhões de votos a mais que os ibopes da vida deram de vantagem ao presidente Fernando Henrique perante seus adversários, antes e durante a eleição, simplesmente se evaporaram. Nem o mais imbecil dos estatísticos erraria tanto.
Do Big Bang, suposto fenômeno que teria formado o Universo, até nossos dias, a ciência calcula um intervalo de tempo de 15 bilhões de anos - com um erro de 5 bilhões, para mais ou para menos, mas um errinho muito pequeno em virtude da magnitude destes números (e olhe que estamos falando de pessoas que praticam a ciência séria e que, certamente, não trabalham em nenhum instituto de pesquisa de opinião brasileiro). Neste intervalo, o homem é um suspiro medido na casa dos milhões e nossa história conhecida - apenas 10 mil anos - um sopro numa ventania.
Estamos para pular a cerca do milênio e examino nossa evolução até agora e concluo que, do machado até nossos modernos computadores, realmente avançamos. Mas nossas mentes, esta coisa ainda indefinida e de mecanismos insondáveis está onde sempre esteve: em órbita ao redor do umbigo de cada um. Já classifiquei aqui estes medonhos e terríveis anos de final de século. São anos cínicos, impérios do individualismo visto como fim e meio. E o cinismo tem demonstrado a sua grande capacidade de nos deixar em estado de hipnose coletiva. Os marqueteiros, bruxos de nossa época, descobriram a poção mágica para manipular até mesmo o individualismo provocado por este cinismo: a indução de idéias. Só que às vezes pajelança falha, mas vale a pena correr o risco e tentar empurrar pela garganta do eleitor um candidato espinhento qualquer.
A história da humanidade caminha num continuum retilíneo por um bom tempo e de repente, sem explicação lógica, começa a dar voltas e piruetas como cachorro louco querendo morder o próprio rabo. Creio que estamos tontos no meio de uma pirueta destas. Passamos pela barbárie, antes da construção do Império Romano e ficamos séculos atrás de uma boa mordida na própria cauda, no obscurantismo da Idade Média.
É certo que acordamos com o Renascimento, no século XV e com o Iluminismo, no século XVIII. A Idade Média ficou assim como um grande hiato da vida da humanidade, pouco se produziu, pouco se fez, com o homem contentando-se em ser vassalo ou rei.
Depois veio a grande discussão, razão pura ou sentimento? Kant resolveu o problema sugerindo a razão prática, uma mistura de tudo que se supunha ter na terra e acima dela e que de certa forma determinava o homem. E desde a metade do século passado nós vivemos temperando nossos dias com pitadas de razão, sentimento e, recentemente, cinismo. E a razão cínica está vencendo esta guerra. É possível que a realidade nos sacuda numa manhã qualquer de sol. E acordados descubramos que nossa história é tão sem graça como a história dos homens medievais que se ajoelhavam diante da força do soberano.
Mas até lá, diante dos manipuladores de idéias, contentemo-nos em ser apenas hiatos.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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