Publicados antes das eleições, dois documentos que expressam as preocupações dos militares, sobre o futuro do Brasil, passaram quase despercebidos. Num, o ministro Zenildo Lucena, apesar das restrições impostas por seu cargo e do apoio ao presidente Fernando Henrique, deixa transparecer que o Exército, ao ajustar-se à política econômica em vigor, privou-se de alguns pressupostos, no tocante a defesa do país. Outro documento, divulgado por militares da reserva, portanto mais livres para expor suas idéias sobre a crise econômico-financeira do Brasil, chega a conclusões também inquietantes.
O ministro falou à Revista do Exército, de circulação restrita entre os militares de sua pasta; os militares da reserva manifestaram-se em O Farol, publicação distribuída em todo o país, a seus assinantes.
Em editorial sob o título ‘‘Da crise à tragédia’’, estes últimos afirmam que ‘‘o modelo econômico de dependência externa e de entronização alucinada do capital estrangeiro, como grande fator de crescimento de nossa economia, denuncia a perversidade de seus futuros desdobramentos, confirmados para tristeza do povo brasileiro.’ E indaga: ‘‘Vamos continuar de braços cruzados?’
Queixa-se O Farol da transferência de nossa poupança real para o exterior, através do programa de privatizações e da abertura do mercado brasileiro à importação descontrolada. ‘‘Que resta ao Brasil, já sem o controle de seus próprios movimentos, conforme vem mostrando o governo, ao incumbir o FMI, o governo dos EUA e o Grupo dos Sete, de arranjarem uma solução para nossos problemas, criados exatamente pela adoção do modelo neoliberal?’ Após a constatação desses e de outros atos do governo, julgados prejudiciais ao país, afirma O Farol que ‘‘a reeleição de FHC foi uma ordem vinda de fora’’.
O ministro Zenildo reconhece a extensão do problema de nossa miséria: ‘‘Todos sabemos que a distribuição de renda no país é injusta e obedece a um modelo fortemente concentrador’’. Ele acha, porém, que a manutenção dos baixos índices de inflação, alcançados pelo Plano Real, poderá resolver essa questão. De resto, faltam verbas para o Ministério do Exército. Por isso, os objetivos aí estabelecidos vêm sendo alcançados, mas ‘‘com alguma restrição na área de Ciência e Tecnologia, a qual exige recursos muito superiores aos que temos sido capazes de alocar.’ E revela que se adotou a estratégia de resistência para defender a Amazônia. Que é isso? Em caso de conflito na região, será ‘‘usada a estratégia do fraco contra o forte, para desgastá-lo física e psicologicamente, atingindo-o no ponto mais vulnerável: a vontade de lutar.’ Era o que Che Guevara e Régis Debray aconselhavam para as selvas da América Central e do Vietnã. No caso da distribuição de renda, a ONU mostrou que o Plano Real ajudou a torná-la pior. Quanto à questão da dependência externa, é duro dizer, mas as negociações do país, com o FMI e com os EUA, não deixam de dar razão a O Farol.
Tais preocupações foram abafadas pela campanha eleitoral, mas continuam vivas, como reação ao neoliberalismo, que pôs o Plano Real acima do Brasil e dos brasileiros e não a serviço deles.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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