Paulo José Cunha
Na medida em que é apresentada como denúncia e advertência, a divulgação dos atos de violência tem caráter pedagógico. A afirmação pode parecer temerária mas é preciso deixar clara a confusão entre informação e banalização. Nada comprova que a divulgação dos atos violentos concorra para a elevação das taxas de violência. Pelo contrário. Graças à exposição das mazelas sociais explicitadas nos atos de violência é que a sociedade cria mecanismos de defesa, adverte-se para o problema e aciona o aparelho policial e jurídico na busca da punição de culpados e correção de comportamentos.
Nada mais ingênuo, portanto, do que as campanhas em favor do redirecionamento das pautas dos veículos de comunicação na busca de enfoques ‘‘positivos’’. A realidade é o que é, e um órgão de comunicação estará cumprindo seu papel na medida em que for fiel à correta divulgação dos fatos tendo em vista a mudança social, aqui entendida como melhoria dos padrões de convivência humana.
Outra coisa – esta sim, condenável sob todos os aspectos – é a exploração sistemática da violência como alavanca para a conquista de audiência e elevação de tiragem. É a falta de respeito aos direitos elementares de cidadania. É a exploração do ser humano submetido a situações humilhantes na ilusão dos famosos 15 minutos de fama a que se referia Andy Warhol. É a invasão da privacidade e a exposição do público infantil a situações constrangedoras que comprometam irreversivelmente a formação de sua tábua de valores.
Na esteira disso tudo vem o mais perigoso de todos os males – a banalização da violência, esta sim, de efeitos devastadores pois resulta no esgarçamento do tecido social. Frei Betto acredita que o convívio diário com certas situações acaba por embotar a sensibilidade. ‘‘Aos poucos – escreve ele – a dor alheia soa como um ranger de porta, o horror vira rotina, a morte do próximo é vista como página virada. É a banalização da tragédia. Para suportá-la, procuramos revesti-la de comédia.’’
Mais adiante, Frei Betto afirma que ‘‘a televisão domestica-nos para bem conviver com a tragédia, carnavalizando situações aberrantes e exibindo no palco deformações de corpo e espírito como se fossem meras atrações de interesse público(...) Tudo se banaliza, a ponto de ocorrer uma inversão em nosso enfoque: danem-se os direitos coletivos, as causas sociais, os valores e os ideais. O que importa é o chicote da mascarada, a privacidade da dançarina do tchan, a filha da rainha dos baixinhos, o féretro da princesa que enterra a nossa ilusão de que a vida, para nobres e ricos, é sempre bela e feliz.’’
Nada mais alvissareiro, portanto, do que a proposta da senadora gaúcha Emília Fernandes, apresentada à subcomissão de rádio e televisão do Senado. Ela quer que os pareceres meramente técnicos levados a plenário para a concessão ou renovação das concessões – assuntos tratados hoje com tal descaso que se realizam através de votação simbólica – façam-se acompanhar, doravante, de levantamentos sobre o conteúdo das programações. Só assim as emissoras seriam chamadas à responsabilidade e o Senado começaria a tratar seriamente – e rigorosamente dentro de sua competência – a origem do problema.
Merece aplausos (apenas pela intenção) a campanha ‘‘72 Horas de Não-Violência na Mídia’’, proposta pela ONG Brahma Kumaris, que propõe aos pauteiros uma inversão da pauta ‘‘negativa’’ em favor de um ‘‘cessar-fogo da mídia durante três dias – os dois últimos de 1999 e o primeiro dia de 2000 – para entrarmos no Terceiro Milênio com o pé direito’’. Trata-se, porém, de proposta romântica quando se sabe que a partir do quarto dia tudo retornará à ‘‘normalidade’’ da banalização da violência, da vulgarização do sexo e da desobediência aos princípios básicos de respeito humano se não forem adotadas – isto sim – medidas coercitivas e enérgicas para cortar o mal pela raiz.
A proposta da senadora Emília Fernandes pode e deve ser um ponto de partida para se começar a tratar o tema por onde ele merece: pelo bolso dos detentores das concessões. Essa linguagem eles entendem.

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