A violência e a Campanha da Fraternidade
O mundo está mais pacífico. Menos violento. Frases assim parecem anestésicos para almas feridas, mas é a mais pura verdade. Os números não mentem. A cada década, as mortes violentas têm despencado no mundo todo e até, de forma ténue no Brasil! Se em 2000 morreram 520 mil pessoas assassinadas no planeta, em 2012 morreram 475 mil, apesar do aumento populacional. Segundo a OMS, de 2000 a 2012 houve um declínio de 16% de mortes violentas em termos globais e de 39% nos países desenvolvidos. O mundo está vencendo batalhas contra a violência.
Porque o cidadão brasileiro comum, não consegue então enxergar estes números no seu dia a dia?
Por várias razões. A mais óbvia é que, por menores que fossem os índices, ninguém se contentaria com qualquer manifestação de violência, embora saibamos que isso seja uma utopia. Ser atingido direta ou indiretamente por atos violentos, marca a vida de uma pessoa, de uma família e de um grupo inteiro. Mas o Brasil também não tem colaborado. Para ser mais correto, está na contramão da história. Convivemos aqui com 29,9 mortes violentas por cem mil habitantes. Números que infelizmente pouco se têm alterado nos últimos anos. O Rio de Janeiro possui 37,6 e está em décimo lugar no ranking nacional. A média mundial está em 6,8 e os países de renda média e baixa da região do Pacífico Ocidental por exemplo, já acham altas as taxas de 2,1 mortes nessas circunstâncias.
O Paraná registrou uma redução de 1.4% de mortes violentas nos últimos dez anos, mas Londrina ainda é fustigada por 20 assassinatos a cada cem mil habitantes. O cidadão de fato, não tem nada para comemorar.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil resolveu abordar este ano, o tema da violência, na perspectiva da sua superação. O Rio de Janeiro acaba de ser alvo de uma intervenção federal no campo da Segurança Pública. Medida inédita no período da redemocratização. O mote do debate proposto pelos bispos, não é a apresentação fria de números que nos aterrorizam diariamente. O epicentro, está no aprofundamento das causas e fatores que nos fizeram chegar a esta situação.
Os críticos que rejeitam a dita intervenção no Rio, o fazem desmistificando a ilusão ótica que está por trás da abordagem da criminalidade, sob o enfoque da militarização. O crime é o vazio preenchido pelo estado paralelo, que aproveitando governos fracos e Estados ausentes, estende os seus tentáculos do terror sem mais nenhuma fronteira. A corrupção, a justiça morosa geradora da sensação de impunidade, sistema penitenciário falido e a crise econômica que dificulta o acesso dos jovens ao trabalho, são apenas algumas das causas. O tecido social brasileiro está rompido, a intolerância aumenta e com isto se esvai por entre os dedos a nossa fama de povo ordeiro.
Os países que viram sua criminalidade despencar, investiram muitos recursos na pacificação. Fizeram-no com planos de urbanização com significativa presença de serviços estatais e formação de uma polícia eficiente, bem preparada e bem paga. Os Centros de Comando integrados de inteligência policial e combate ao crime, são mais eficazes do que a ostentação bélica nas ruas. Mas aqui temos um país com um Estado falido, que não consegue eliminar as suas próprias contradições. Quer enxugar a máquina e a todo o momento tolera ou aumenta privilégios e estruturas para novas gastanças. Vem aí mais um novo Ministério. Assim, não é o crime que vence. É o Estado que perde! A CNBB chama a atenção para o óbvio: Cuidemos do Brasil como um todo. A segurança e a paz sempre serão consequência de atitudes pacificadores que passem pela educação e pelo desenvolvimento.
MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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