A violência das multidões - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de outubro de 1998
Joel Samways Neto 
Os veículos de comunicação de massa têm mantido na berlinda, ultimamente, a questão da violência nos estádios de futebol. No gramado, não - no estádio! Na arquibancada, nas gerais, em suma, na galera. (A violência no gramado tem ficado por conta dos ossos do ofício. Aquilo que em Direito Penal chama-se exercício regular de direito. Dizem que são coisas do bretão esporte. Futebol é pra macho!, disse o camundongo, esmagado na grande área, ao elefante, zagueiro, que lhe dera um carrinho para matar a jogada).
O problema tem sido levantado, obviamente, por pressões econômicas. Os estádios estão se esvaziando. A família brasileira não tem comparecido, de medo. Pouco tempo atrás, iam ao campo o marido, a esposa, os filhos e os avós. Era diversão pública, barata, democrática. As torcidas não eram tão organizadas nem tinham força política. O maior perigo era a criançada aprender alguns palavrões novos (se bem que, nessa matéria, dificilmente a molecada ouvia novidade). Comprava-se amendoim (que o vendedor vendia com casca, despejando uma copada aos pés do comprador), pipoca, refrigerante; os torcedores prevenidos levavam chapéu, óculos de sol, guarda-chuva, almofada e rádio. Ainda hoje esses ritos são cumpridos religiosamente. O que mudou foi a violência da multidão.
As torcidas se organizam como grupo social. Antes havia turmas, turminhas, patotas, gurizada que eventualmente extrapolavam no entusiasmo, certamente para ter alguma vantagem para contar segunda-feira, na escola. Só que as proezas foram ficando banalizadas. Xingar mãe de juiz, qualquer um xingava. Jogar bagaço de maçã nos torcedores adversários, qualquer um jogava. Então começaram a jogar bagaços no bandeirinha, nos jogadores do time rival. E de bagaço passaram a atirar sacos de água, de farinha, que logo passaram a ser urina. E ficou banal atirar latas de cerveja ou refrigerante no gramado. Começaram a atirar garrafas. Quer dizer, o que era alegria virou banditismo puro.
Isso são observações de quem só assiste a jogos de futebol pela televisão e acompanha o epifenômeno (com os comentários do vandalismo dentro do estádio e nos arredores) pela rádio e jornais. A última vez que estive numa arquibancada foi nas gerais do Dorival de Britto, para ver a Seleção Paranaense jogar contra a Seleção Brasileira do técnico Coutinho. Ou seja, é quase um fato arqueológico. Mas já naquela época percebi o risco de morte que um ser humano corria num lazer daqueles. Além dos arremessos de garrafa, um grupo de exaltados, na arquibancada de cima, resolveu jogar uma enorme caixa de papelão (em chamas!) na arquibancada de baixo. Foi um esparramo de gente por todos os lados. Nunca mais voltei.
A preocupação sociológica a respeito desse fato é que essa violência nos estádios extravasa. Algo parecido com a violência praticada nas penitenciárias. Não fica intramuros; ela vai para a atmosfera social, contribuindo para aumentar os focos de tensão na sociedade. Basta assistir às imagens de um telejornal, mostrando uma briga de torcidas, para sentir a descarga de adrenalina que este tipo de horror causa. Sem falar nas vítimas, inocentes ou não. E essa crise não é privilégio do futebol, não. Outro dia também teve quebra-quebra num campeonato de vôlei, num jogo entre Brasil e Argentina.
Obviamente, a tarefa é uma tarefa de base, familiar, escolar. Contudo, enquanto essa mudança de mentalidade não acontece (o processo é naturalmente lento), o Estado tem que aperfeiçoar os instrumentos de controle e, se for o caso, de repressão. A administração pública, em matéria de segurança deve se assessorar rapidamente de especialistas em psicologia de multidão. E eles vão dizer que a origem da violência multitudinária é, no efeito imediato, a incitação praticada por lideranças negativas. São pessoas que sensibilizam grupamentos humanos e estes as obedecem. Sem excluir o trabalho de base, educacional, a maneira mais eficaz de combater esse fenômeno é a polícia filmar as torcidas, identificando os líderes e registrando suas ações. Se delinquirem, devem ser indiciados, processados e condenados na forma da lei.
Todo o trabalho que a escola e a família porventura realizem com uma pessoa, pode cair por terra numa simples partida. Assim, se o estádio de futebol, local de descompressão, transformou-se em gerador de crises, o Estado, diante do altíssimo custo social desse desequilíbrio, não pode ficar indiferente.
É do mais alto interesse público que as autoridades constituídas reajam.


