A violência da Polícia e da ira popular
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de março de 1997
Walmor Maccarini 
Amai-vos uns aos outros, ensinou o Mestre. Mas o homem entendeu armai-vos, e de arma em punho, ou com os próprios punhos, entrou na briga e dela não mais conseguiu safar-se. Os recentes episódios de Ibiporã foram apenas fatos corriqueiros, que já aconteceram antes e irão acontecer mais vezes. Porque a causa não é eliminada, que é o perene estado de ira do indivíduo.
Um policial, supostamente com a ajuda de colegas, utiliza os punhos e destrói a vida de um inocente e desavisado cidadão, por acaso um pastor. A comunidade de sua igreja faz uma passeata de protesto, entoando cânticos e empunhando bíblias, e dentre eles um segmento de exaltados arrebenta a pedradas e a fogo as instalações da Polícia. Soma dos prejuízos: morte, danos materiais, uma família desmoronada, e mais ódio e ira no ar. Fúrias adormecidas se reacendem bradando por justiça, mas ela já foi feita pelas próprias mãos. Poucas mentes sensatas para indicar que há outro caminho, e se nenhum for encontrado se terá que construir um! Para as autoridades, tudo se resolve no rigoroso inquérito. O Secretário de Segurança vem, olha os estragos, diz que o inquérito será procedido com transparência e que os culpados serão punidos. De sua vez, os noticiaristas e comentaristas de tonitroantes programas policiais, do rádio e da tevê, fazem da tragédia o espetáculo, vociferam iras aos quatro ventos, indicam fórmulas de como pôr a ferro os culpados, enchem de nuvens cinzentas o céu e as mentes. Prejuízos enormes! Sobra para todos. Cada um de nós morre um pouco com estas tragédias.
Os pronunciamentos e manifestações das autoridades, nestas horas, são um desastre. Só clamam por mais violência. Umas pedindo o tal rigoroso inquérito; outras a pena máxima para os culpados; outras mais, o afastamento do secretário, e todo aquele conhecido corolário de soluções que nada solucionam. Nenhuma voz inteligente a bradar neste oceano de senilidades.
Polícia truculenta, eis o pivô, no presente caso. Polícia, não esqueçamos, é produto do meio, e nunca será melhor se a parcela da sociedade constituída pelos homens melhores não se mobilizar. Se os policiais são recrutados e treinados pelos seus iguais, então teremos uma Polícia composta de iguais.
E - no caso de Ibiporã - se os pais insuflam os filhos adolescentes a lançarem pedras às instalações da Polícia e a atearem fogo, amanhã eles atearão fogo à escola e à casa do vizinho.
A solução é recrutar policiais no meio acadêmico, treiná-los segundo novos padrões, pagar-lhes salários condizentes, e assim com toda certeza a eficiência policial aumentará substancialmente e os índices de truculência cairão a zero. O policial pode ser um graduado em Direito, Psicologia, Sociologia. Da mesma forma que um médico só pode exercer a profissão se passar pelos bancos da escola de medicina. Se para lidar com a saúde dos homens exige-se formação acadêmica, por que não dos que vão lidar com a segurança das pessoas?! Se do homem que vai empunhar um estetoscópio ou um bisturi exige-se um diploma de curso superior, por que não daquele a quem vamos entregar um revólver?! Um bisturi em mãos inábeis será tão desastroso quanto uma arma nas mãos de um bronco. Os grandes roubos, os grandes assaltos, os grandes sequestros (para não falar dos pequenos), no mais das vezes têm policiais envolvidos. Por aí se vê.
Não dá para só culpar os policiais, nem imaginar que as punições, por si sós, resolvem. O que resolve é iniciar grandes reformas estruturais. Não se pode entregar a segurança dos cidadãos a cabeças tão despreparadas!
Questão seguinte: segmentos da população tão violentos quanto policiais e delinquentes. O episódio de Ibiporã foi um exemplo. Não se culpe toda a população, mas um punhado daqueles que, em meio a cânticos e citando trechos bíblicos e a palavra do Senhor, semearam o inferno! Quanta fúria! De que terão valido, para esses, os ensinamentos da Bíblia? Não os adolescentes, mas os adultos que os insuflaram, com certeza os próprios pais. Policiais truculentos de um lado, e eles de outro, todos se equivalendo. Não se sabe aí quem é mais violento.
Pouco interessam agora os rigorosos inquéritos, que na verdade nem rigorosos são!
Nada vai melhorar na Polícia se continuar esta mesma Polícia. A Polícia não é culpada se aceitamos que esta seja a nossa Polícia. Se não nos movemos para criar a Polícia ideal, então não podemos nos queixar. Passeatas, depredações, rigorosos inquéritos, punição exemplar dos culpados não resolverão. O que resolverá é nos debruçarmos sobre o problema, com vontade e firme decisão, não para reformar a Polícia que aí está, mas para criar uma nova Polícia. Que não terá nem brutos, nem destemperados, nem incultos, mas homens e mulheres de estatura para a função, e naturalmente bem pagos. O custo social dos estragos é hoje bem mais alto do que investir pesado nos organismos de segurança. Ademais, Polícia ineficiente e corrompida atrai e cria mais bandidos. Polícia séria e eficaz desestimula a formação deles.
A Polícia não precisará ser oficial, mas administrada pela iniciativa privada. E regida pelo Poder Judiciário. Os delegados seriam eleitos pelo povo, e os candidatos selecionados entre cidadãos de indiscutível e comprovada estatura moral. Os benefícios daí decorrentes são inimagináveis. Viriam por acréscimo.


