A vingança dos bichos
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de maio de 2009
Nelio Roberto dos Reis 
Maltratamos tantos os animais que, de tempos em tempos, eles se vingam atirando alguma praga em nós humanos. Ironizando, George Orwell (1903-1950) - escritor conhecido por descrições concisas de eventos e condições sociais e que morreu de tuberculose aos 46 anos - já nos tinha alertado: um dia os bichos se revoltariam! Tivemos a gripe do frango, as doenças transmitidas pelas pombas, pelos macacos como reservatórios da febre amarela e agora vem a gripe do porco.
A gripe suína, um vírus gripal, pode se expandir de maneira muito rápida. Mutações contínuas no porco favorecem o surgimento de novos vírus por meio de recombinações genéticas que podem torná-los muito agressivos, perigosos e transmissíveis como à gripe humana.
Esse vírus, que confunde o sistema imunológico, poderia ter as características necessárias para desencadear uma pandemia e a vacina contra a gripe humana não protege contra a suína. (Pandemia é quando uma gripe ocorre em epidemia de rápida expansão geográfica, surgindo focos, podendo atingir proporções mundiais). O consumo de carne de porco não representa risco porque a temperatura de cozimento destrói os vírus.
Um jornal francês noticiou que: ''A gripe suína, que infectou centenas de pessoas nos Estados Unidos e no México, onde deixou 57 mortos, é uma doença respiratória que afeta os porcos, mas é transmissível ao ser humano, e pode suscitar uma pandemia''. Mas vamos aos fatos: macacos estão morrendo de febre amarela no Parque Ingá em Maringá, a 100 quilômetros de Londrina! Também temos outros casos de epidemias que nos assustam. A Leishimaniose, transmitida pelo mosquitinho (flebótomo) e pode ter o rato como hospedeiro mamífero, é o segundo maior assassino parasitário do mundo. Perde somente para a malária, esta uma das maiores causas de mortes no Brasil e no mundo e uma das maiores causas de atendimento externo das unidades sanitárias. Só no Brasil, foram 450 mil casos em 2004.
Vamos esquecer a conhecida dengue e outras doenças que não são transmitidos por animais, e que ocorrem em países carentes de cuidados básicos e com alta promiscuidade por falta de recursos, como a tuberculose (perto de mil casos/ano) e da lepra onde somos incluídos entre os países da mais alta endemicidade - o Brasil chega a ter um coeficiente de prevalência média superior a um caso por mil habitantes.
Apesar de tudo isso, com a desordem básica séria na nossa casa, devemos pensar no altruísmo das autoridades. A Comissão de Constituição e Justiça da Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Decreto Legislativo que autoriza o Brasil a doar US$ 6 milhões (cerca de R$ 13 milhões) para o Global Environment Facility. Ainda, o governo brasileiro se comprometeu a doar remédios antirretrovirais a Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Doamos remédios para países pobres esquecendo que existe uma imensa África dentro do nosso país. Isso deve ser realçado porque quando existem doações da Alemanha ou Estados Unidos ou Inglaterra, eles doam o seu supérfluo e nós - brasileiros - doamos parte do nosso sangue, da nossa alma, porque nos faz muita falta.
E pensar que a fortuna de um único brasileiro como o sr. Newton Cardoso, ex- governador de Minas Gerais, de cerca de R$ 3 bilhões, poderia eliminar uma dessas doenças, ou que a verba dos gastos de um único ano do Senado poderia eliminar outra ou ainda que a anuidade de um mensalão poderia acabar com mais uma. Pode um país, como o Brasil, que perde milhares de crianças com diarréia pela falta de educação e higiene doar dinheiro para os outros? Pelo menos por enquanto, não precisamos nos preocupar com nenhum porco porque essa gripe ainda não chegou no nosso quintal.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências e professor na Universidade Estadual de Londrina


